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Crônica dos 45 anos. Esta semana completei 46 anos de idade... Foi um alívio. Eu explico. Há mais ou menos 18 anos por uma dessas razões que a própria razão desconhece, deixei uma cigana ler minha mão. Foi assim: a cigana pegou a minha mão, a esquerda eu acho, e alisou-a como se quisesse limpar algo. Olhou por alguns segundos e disparou: - Você tem duas mulheres em sua vida, uma loira e uma morena. Como eu vivia uma fase entre um casamento e outro e de fato havia uma loira e uma morena na história, achei logo que a mulher era boa. Fiquei ali pensando espremido entre a desconfiança e a expectativa de um futuro promissor e dei mais tempo (e dinheiro) para a cigana continuar o estudo sobre as linhas desenhadas na palma de minha mão... Após este começo promissor, fiquei na esperança de novas revelações e, como já tinha criado um vínculo de confiança com a cigana, aguardava, evidentemente, ótimas notícias. Elas vieram. Mas em parte. Segundos depois a cigana olhou novamente para mim e disse: - Olha, quando fizer 45 anos você será um homem rico... Mas antes que um sorriso de satisfação se formasse completamente em meu rosto, a nômade completou: - Só que com esta mesma idade o senhor vai morrer... E foi assim que a partir daquele momento em todos os anos que se seguiram eu me preparei para cumprir a sina. Enriquecer e morrer. Assumi uma autoconfiança muito forte, e a despeito de ter me formado e me tornado um sociólogo, mantive uma sólida certeza de que iria ficar rico. Quanto minha sentença de morte... bem eu calculei que se ficasse bem rico, ao menos meus filhos e minha esposa não ficariam desamparados. Tratei de curtir o máximo os meninos e minha mulher e torci, por anos, que a cigana estivesse errada quanto a esta (apenas esta) previsão ... Mas claro, não queria morrer tão novo e isso fez com que inúmeras vezes indagasse a mim mesmo sobre o que a mulher realmente teria dito “rico E morto” ou “rico OU morto. Repetidamente forcei a memória para ver se encontrava alguma possibilidade de engano, e de tal modo o “ou” prevalecer sobre o “e”. De qualquer modo, por segurança, no início de meu 45º ano de existência nesta terra descartei logo a possibilidade de enriquecer já que a sociologia não me rendeu muito dinheiro e, o que poderia ser uma alternativa, sequer jogo na mega sena e nem em outras loterias.Mas a dúvida permanecia (“E” / “OU” e, portanto, minha morte não estava descartada), redobrei meus cuidados. Prestei mais atenção ao dirigir, procurei não me meter em encrenca no trânsito (é verdade que cometi algumas imprudências consideráveis, como começar, a esta altura do campeonato, a surfar)... O fato é que, também, não morri. Para falar a verdade vivi muitas coisas no 45º ano de vida. Talvez eu tenha morrido em alguns aspectos para renascer melhor e enfrentar a vida com mais coragem e com certeza tenha ficado mais rico pelo fato da vida ter-me proporcionado conhecer e conviver com tantas pessoas queridas que hoje, próximas ou distantes, fazem deste mundo um bom lugar para se querer ficar. ... Hoje completado meus 46 anos, olhando prá trás e pensando bem não há como não dizer que aquela danada da cigana não estava totalmente errada.
Escrito por marcelo às 13h22
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Por que tudo que é inteligente tem que ser chato e tudo que não é chato tem que ser não inteligente? Ou para se falar de sexo. Está bem. Desta vez vou ser menos diplomático do que costumo ser. Mesmo porque, não há outro modo de pensar, agir e escrever quando se trata de falar sobre assuntos que geralmente são tratados no âmbito do gosto pessoal. Este é o caso da música (e do sexo). Faz algum tempo que ouvi o Caetano Veloso diferenciando música como arte e música como entretenimento. A música como arte seria algo relacionado com a poesia, com sofisticação melódica, com o sublime ... O entretenimento sonoro não tem, necessariamente, estas qualidades. Mesmo sem ser especialista do assunto, eu ousaria dizer que a música como expressão da arte tem um certo componente criativo e mesmo subversivo, ao passo que o entretenimento, ao contrário, quando muito, produz o pastiche da realidade e nos mergulha mais fundo na ordem estabelecida. É provável que o próprio Caetano não reconheça hoje esta diferenciação, mas eu continuo apostando em sua utilidade. De qualquer modo, eu mesmo, ainda não mudei de idéia a este respeito. Gosto muito música. Ouço desde muito novo artistas que considero de qualidade. Sempre achei possível chorar, rir, pensar, amar, me indignar ouvindo Chico Buarque, Chico Cesar, Chico Science e Nação Zumbi, Paulinho da Viola, Beto e Lô Borges, Caetano, Gil, Cartola, Cazuza, Milton Nascimento, Noel Rosa, Tom Jobim, João Gilberto...e muitos outros e outras artistas. Acho que as músicas e as letras destes artistas possuem características bem claras e que de modo algum podem ser equiparadas a certas manifestações do entretenimento sonoro a que a “sociedade para o consumo” vem chamando de música. Vamos comparar. Vamos pegar um exemplo de cada universo para ver a diferença. Vamos falar do tema com maior “ibope” no entretenimento sonoro: sexo. Comparecemos as músicas “Geni e o Zepelim” do Chico Buarque e a música “Chupa que é de uva. (seguem os links para acessar. http://letras.terra.com.br/chico-buarque/77259/ e http://letras.terra.com.br/avioes-do-forro/1186715/. Foi impossível postar as letras no blog)
Escrito por marcelo às 23h38
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Por que tudo que é inteligente tem que ser chato e tudo que não é chato tem que ser não inteligente? Ou para se falar de sexo. (Continuação) Bom, o que há de comum? A referência ao sexo, certo? O que há de diferente, todo o resto. O vocabulário, o contexto e, claro, a possibilidade de ir além do imediato, de criar relações, conexões ... Mas acho que o fundamental (será possível falar em fundamental nestes líquidos tempos modernos) é que na letra do Chico o prazer não está única e exclusivamente localizado na genitália... Vê-se logo que não estou aqui argumentando a favor do moralismo, ao que me oponho tão decididamente quanto ao “entretenimento sonoro” da “sociedade para o consumo”. Questiono apenas (mas sempre) o efeito desta manifestação midiática em nossa capacidade de pensar, de refletir, de questionar e de mudar a nós mesmo e ao mundo. Olha gente, não dá prá não bater na velha tecla da alienação... Argumentos como estes meus tem recebido muita resistência. Em parte, isto se deve ao fato de vivermos no que se convencionou chamar de pós-modernidade, onde conquistas importantes como a crítica à idéia de superioridade cultural e a defesa do relativismo cultural foram recapturadas pelo pensar e fazer hegemônico de modo a fortalecer a ordem estabelecida (existe uma ordem estabelecida, mesmo que ela se manifeste de modo fragmentado, efêmero e volátil). O direito ao gosto próprio tem sido utilizado para esvaziar o debate e destruir a dimensão política que prescinde, por suas características, da vida pública, aquela dimensão comum a todos. Por isto, o direito às nossas preferências pessoais não pode encerrar o diálogo, o debate, e, por que não, o enfrentamento de idéias que nos conduza a estabelecer parâmetros mais universais para promoção do bem comum. É interessante, entre defensores do ecletismo, do direito a gostar “daquilo que bem entendemos” há muitos daqueles atacam e banalizam questões como as relacionadas às variações lingüísticas. Vide a polêmica (produzida) sobre o livro didático que ousou a dizer que é possível ensinar língua portuguesa por meios e caminhos diferentes daqueles construídos pela história oficial e pela cultura hegemônica. Eu não gosto de tudo não. Não gosto mesmo. Prá tem música boa e música que não é música, é entretenimento. Aliás tem músicas que eu detesto, me deixam de mau humor e me travam. Se em uma festa em nome “de que devemos gostar de tudo um pouco” e pela vontade de alguma divindade pós-moderna começar a tocar ritmos que não me agradam eu paro de dançar e protesto: “toca rock and roll!!”, grito logo. Eu não sou obrigado a gostar de tudo... O pior é a censura velada ao debate sobre tantas questões culturais e políticas. O pior é não poder discordar. Pior ainda é discordar e não poder argumentar. Porque isto seria um “desrespeito” ao gosto alheio!!! Puxa vida, como dizia minha avó, “tenham dó”!! Como esta conversa não tem fim, fico por aqui. Para me despedir volto ao tema do sexo e com alegria e com alguma (suposta) inteligência, deixo-os em companhia de Bertolt Brecht O uso das palavras obscenas Desmedido eu que vivo com medida Amigos, deixai-me que vos explique Com grosseiras palavras vos fustigue Como se aos milhares fossem nesta vida! Há palavras que a foder dão euforia: Para o fodidor, foda é palavra louca E se a palavra traz sempre na boca Qualquer colchão furado o alivia. O puro fodilhão é de enforcar! Se ela o der até se esvaziar: bem. Maré não lava o que a arvore retém! Só não façam lavagem ao juizo! Do homem a arte é: foder e pensar. (Mas o luxo do homem é: o riso). Vamos conversando...
Escrito por marcelo às 23h32
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Ano I do Sistema de Cotas da UFS
Marcelo Alario Ennes
Agora faltam nove anos para acabar o prazo inicialmente aprovado para o funcionamento do sistema de cotas na Universidade Federal de Sergipe. Parece ser oportuno fazermos um pequeno balanço considerando alguns dos vários atores sociais envolvidos, por assim dizer, no campo das lutas práticas e simbólicas pelas vagas dos cursos de graduação da UFS. Convém lembrar que o sistema de cotas faz parte do Programa de Ações Afirmativas (PAAF) da UFS e foi implantada a partir do processo seletivo para o ano 2010. Essa iniciativa foi aprovada pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CONEPE) da universidade. Como já tive oportunidade de expressar em oportunidades anteriores, entendo o sistema de cotas como um dos mecanismos capazes de promover, em médio e longo prazo, uma reestruturação social ao criar uma nova série de oportunidades capazes de garantir maior equidade social, por meio do acesso à universidade pública de parte das classes sociais econômica e culturalmente descapitalizadas. Ao contrário do que muitos afirmam, o sistema de cotas não elimina a lógica meritocrática de acesso e permanência na universidade, mas a recoloca em outras condições onde as disputas ocorrem entre semelhantes e não entre desiguais. É como em um campeonato de Box, onde as lutas ocorrem entre competidores da mesma categoria. A implantação do sistema de cotas imprimiu, portanto, nova dinâmica ao campo em que se dá a disputa pelas vagas dos cursos de graduação da UFS ao valorizar capitais oriundos da trajetória escolar e da origem étnica até então completamente desconsiderados. Essa nova dinâmica das disputas nesse campo trouxe inúmeras mudanças práticas e simbólicas nas relações entre os atores envolvidos. Comecemos pelos os alunos aprovados por meio das vagas do tipo B (escola pública) e tipo C (escola pública e origem étnica). Um recém estudo da Coordenação do PAAF divulgado no site da universidade revela uma tendência já observada em outras experiências de cotas em universidades brasileiras e demonstra a semelhança do desempenho acadêmico seja qual for o tipo de vaga pela qual o aluno ingressou na UFS em 2010. Este levantamento indica que os chamados alunos cotistas não vieram para “atrapalhar”, como muitos afirmavam. Desse modo, a diferença quanto à pontuação verificada no processo seletivo entre cotistas e não cotistas não se traduziu em notas, em aprovações e em evasão dos alunos cotistas um ano após terem sido aprovados no processo seletivo da universidade. Ao contrário, de acordo com o relatório, os alunos aprovados pelas vagas B e C evadem menos e possui desempenho, ao menos, semelhante aos das vagas do tipo A (os chamados não cotistas). Isto é muito importante para, em primeiro lugar, reforçar a idéia segundo a qual o sucesso dos alunos oriundos da rede privada está mais associado ao “treinamento” recebido para o processo seletivo e não, como alguns gostam de afirmar, a uma possível superioridade intelectual. Em segundo lugar, o sistema implantado caminha na direção correta já os alunos com menor pontuação no processo seletivo praticamente igualaram-se em um ano letivo aos seus colegas com maior pontuação. Nota-se assim uma dinâmica onde os diferentes tipos de vagas não reproduzem as desigualdades vivenciadas antes do ingresso na universidade. Nesse primeiro ano de funcionamento do sistema de cotas verificou-se uma interessante mudança no plano simbólico em relação à definição de quem aparece como concorrente não legítimo, condição ocupada inicialmente pelos candidatos cotistas. Agora os ingressantes, independentemente do modo como conquistaram a vaga, se enxergam como semelhantes face à situação criada pelas matriculas efetuadas por meio judicial. Seriam essas matrículas que pressionam negativamente as condições de oferta dos cursos como os laboratórios, o número de lugares nas salas de aulas, livros na biblioteca etc. As escolas particulares, em sua diversidade, constituem um outro ator diretamente envolvido no campo das disputas pelas vagas da UFS. É muito interessante perceber a redefinição do discurso e das práticas empreendidas por essas escolas em Aracaju. Passado o susto e os protestos iniciais, muitas dessas escolas reconverteram o ônus de terem tido reduzido pela metade o seu mercado e em novo elemento de capitalização de seu negócio. Deste modo, a aprovação de seus alunos no processo seletivo da UFS no contexto do sistema de cotas é utilizado, por algumas delas explicitamente em outdoors e outros veículos de publicidade, como o fator que as qualificam no acirrado mercado das vagas da UFS. Aqui deve-se alertar para o risco desse tipo de publicidade reforçar, ao menos enquanto os estudantes não são aprovados no processo seletivo, o preconceito e o ressentimento contra estudantes das escolas públicas. As escolas públicas, por sua vez, mas precisamente, o governo do Estado de Sergipe, como o responsável direto por elas, aparece como um ator cujos capitais e estratégias foram significativamente alteradas com a implantação das cotas. Tal como a iniciativa privada, o governo estadual procura colher dividendos com a aprovação de alunos no processo seletivo da UFS. No caso do governo do Estado estes dividendos extrapolam o campo educacional e procura repercutir no campo maior das disputas ideológicas e partidárias. Nesse caso, o problema consiste no fato do governo do Estado fazer publicidade da aprovação dos alunos egressos das escolas públicas de modo a não deixar claro que isso se deve às cotas e não às melhorias efetivas na educação básica pública do Estado. Para ter mais consistência, o avanço da educação básica pública no Estado necessita de outros indicadores mais adequados. Por outro lado, há um claro efeito profundamente positivo das cotas nas escolas públicas. A simples esperança de ser aprovado no processo seletivo mobiliza, com certeza, os estudantes e suas famílias e lhes dá um horizonte praticamente inexistente, ante da cotas, de ter acesso à universidade pública. Mas isso é algo completamente diferente da idéia veiculada pelo governo do Estado em relação às aprovações. A pergunta que se deve fazer é se após os nove anos restantes do sistema de cotas os alunos egressos do ensino público terão condições de disputar as vagas da UFS em melhores condições de igualdade. Após um ano da implantação do sistema de cotas muitas mudanças podem ser observadas. A mais importante e promissora é a transformação de estudantes, antes estavam excluídos do ensino superior público, em protagonistas de suas vidas e, quem sabe, de mudanças futuras que nos conduzirá a um mundo melhor e mais justo. A dinâmica das disputas produzidas pelas cotas, no entanto, gera velhos e novos riscos. Gera a possibilidade do aumento do preconceito e do ressentimento por parte de alguns e, também, o risco de se criar uma nuvem ainda maior sobre as reais condições da educação pública no Estado. Por sua vez, se no campo da disputa pelas vagas da UFS, profundamente alterado pelas cotas, não se deva imputar à universidade culpa por esses efeitos negativos, cabe a ela, como um dos seus protagonistas centrais, além das ações de garantia de permanência dos estudantes, denunciá-los e combatê-los por meio daquilo que lhe é mais peculiar, a sua capacidade de produzir conhecimento crítico e autônomo.
Escrito por marcelo às 18h30
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Carta aos meus (ex)alunos.
Escrevo especialmente para meus alunos e ex-alunos Gostaria de iniciar esse texto dizendo que, apesar de não ser filiado ao PT, defendo o voto em Dilma. Escrevo para explicar o motivo. Acho que todos me conhecem e sabem que tenho meus defeitos e limites, mas também conhecem meu compromisso e respeito por todos. Acho que uma das maiores provas desse respeito é o fato de nunca, em nenhuma situação, ter utilizado minhas aulas para fazer proselitismo político, para defender esse ou aquele candidato, esse ou aquele partido, apesar de sempre ter deixado claro minha opinião e meu posicionamento político. Escrevo hoje para retomar uma questão sempre presente em minhas aulas independente da instituição, do curso, ou se estava em um curso de graduação, especialização ou mestrado. Minha utopia é uma sociedade formada por pessoas autônomas e capazes de pensar e decidir por conta própria e por isso lhes escrevo. As eleições de 2010, infelizmente, não avançaram muito em termos da consolidação de nossa cultura democrática. Há, por outro lado, algo a se comemorar. Estamos na sexta eleição presidencial consecutiva dentro dos limites do Estado Democrático de Direito. Um recorde, considerando a história política de nosso país. Apesar desse aspecto positivo, infelizmente, a mentira, a dissimulação e o vale-tudo predominam nessas eleições. É verdade, o PT decepcionou no governo. Muitos se sentem traídos pelo PT. Não deixo de entender e concordar. O PT não foi aquilo que sonhávamos... Não rompeu por completo com o nepotismo, com a corrupção e com o fisiologismo. Por isso tem companhias tão incomodas como a do Sarney, Collor e outros políticos conhecidos por seu passado nada ético. Para mim isto está associado às alianças que fez para se tornar um partido eleitoralmente viável em disputas presidenciais. Por isso, tudo o que aconteceu nesses últimos oitos de governo Lula não chega a me surpreender. No entanto, e por isso escrevo, vocês precisam ter claro que a corrupção, o fisiologismo, o nepotismo, os dólares da cueca, os mensalões, não foram criados pelo PT. Por favor, meus caros alunos pensem com calma: o que era o Brasil há oito anos atrás? Um paraíso? Um país isento desses males? Por favor, peguem os livros de história, entre os arquivos virtuais dos jornais de maior circulação no Brasil e relembrem o que era o Brasil. Não vivemos a fase mais corrupta de nossa história, posso afirmar isso com base no que estudei e vocês também podem verificar essa realidade fazendo esse exercício de leitura sobre nossa história. Para combater esse vale-tudo, gostaria que refletissem sobre os seguintes aspectos: 1) Eleições não é jogo de futebol. Vejo vários alunos (a exemplo de muitos brasileiros) torcendo pelo candidato X ou Y. Gente, política não é isso. Não se trata de torcer por esse ou aquele time. Não se deve esperar o dia seguinte da eleição como se espera o dia seguinte de uma decisão de futebol para “mangar” do torcedor do time adversário. Não dá! A política, é sim, coisa séria. É nesse campo (o da política e não o do futebol) que nossas vidas são decididas. Não devemos torcer por candidatos, devemos compartilhar de idéias, princípios e propostas. Ao votar em um candidato, assumimos, consciente ou inconscientemente, suas idéias e suas atitudes. 2) Eleições não é reality Show. Uma grande parte da população brasileira já está vivendo as expectativas do próximo BBB. Há quantos anos esse programa é veiculado na maior emissora de TV do Brasil? Vejo que o BBB (e outros reality shows) assumiu uma tal importância em nossa sociedade que passou a moldar nosso modo de ver o mundo. Por isso é necessário dizer que a política não é reality show. Sabem por quê? Porque na política não somos apenas expectadores. Porque os resultados da política não se encerram no último dia do programa em que se faz a premiação do vencedor. Se existe alguma semelhança da política com o reality show, essa seria o fato de que todos estamos “dentro da casa”. Todos participamos do programa, não há expectadores... Meus caros alunos. O que tem acontecido nessas eleições é um atentado à inteligência de todos nós. Prestem atenção no que está acontecendo. A acusação de que o outro lado é mentiroso está sendo utilizada para poder mentir sem nenhum tipo de escrúpulo. A acusação de que o outro lado é corrupto é uma maneira de acobertar o passado e o presente marcado pelo desvio e mau uso do dinheiro público. Há uma demonização da Dilma a partir de questões polêmicas em nossa sociedade como o aborto e a homossexualidade. Mas eu lhes pergunto, onde essa linha de argumentação nos leva, senão à reprodução de velhos preconceitos e estigmas? Para que serviram nossas aulas? Para continuar vendo as coisas em preto e branco, como se existisse sempre o bandido e o mocinho? Não gente, as coisas são mais complicadas e vejo que a tentativa de simplificar representa um grande retrocesso e um ato de violência contra nossa inteligência. Vejam o artifício: se Serra utiliza-se do subterfúgio criado nos bastidores de sua campanha de que Dilma é bandida, para ser o "outro lado da moeda", ou seja passar mocinho. Vejo ai dois problemas. O primeiro é querer simplificar a política nesses termos (mocinho x bandido). Segundo é a própria figura de Serra. Qual é o fundamento para declarar-se ser o mocinho dessa eleição além de ter veiculado a imagem de Dilma como bandida? Olhem direito e vocês não conseguirão encontrar nada, apenas jogo de palavras e de imagens ... Muitos poderão dizer, “espera aí Marcelo, e o que você diz todas as acusações e denúncias veiculadas pela imprensa?” Bem, já reconheci que há erros graves nos governos do PT. Mas há muito mais que isso. Acredito que em várias aulas tive a oportunidade de dizer que sou contra toda e qualquer forma de censura à imprensa e que como educador apostava em nossa capacidade discernimento. Não há muito o que dizer sobre a imprensa a não ser que ela tem seus interesses (econômicos, políticos e ideológicas) e que utilizam de sua força para influenciar a opinião pública. Mas nem por isso ela deve ser censurada. Como minha trajetória como professor inclui duas regiões do Brasil gostaria de dar alguns recados. 1) Aos meus alunos de São José do Rio Preto, Mirassol, Catanduva, Fernandópolis e Pereira Barreto. Gente o Brasil é muito grande e as realidades muito diversas. O nordeste não é apenas seca e praia, é muito, muito mais. Aqui tem muita gente batalhadora e digna, tal como existe no sudeste. Os brasileiros de todos os estados brasileiros, inclusive, os da região nordeste, tem sua própria história e suas próprias tradições. Não se deixam enganar. Não é um bando de esfomeados que dependem apenas da bolsa família para sobreviver. Se tem gente que se acomoda com esse benefício social, isso não tem absolutamente nada a ver com o local em que nasceram e vivem. É preciso que se diga que o Estado de São Paulo não seria o que é hoje sem o trabalho e o suor de muitos brasileiros originários de vários estados do nordeste e do norte. 2) Aos meus alunos de Itabaiana. Queridos, por favor, olhem ao redor, veja o que mudou em sua cidade e em sua região. As coisas mudaram ou não mudaram? Não olhem para o seu mundo com olhos alheios, com olhos de gente que menospreza e desconhece essa região do Brasil. O nordeste e o Estado de Sergipe tem muito a ensinar ao resto Brasil. Assumam o seu lugar, que é o de protagonista da história desse país. 3) Para todos. O Brasil é um só, mas não pode sê-lo a partir de um único ponto de vista. É necessário que esse Brasil contemple e respeite todos os brasileiros de todas as regiões para que se torne verdadeiramente plural e democrático. Olha pessoal, meu recado é esse. Voto em Dilma por vários motivos. Primeiro porque sei que o que está em jogo é mais do que um nome. O que está em jogo não é apenas o confronto entre Serra e Dilma, mas sim o que cada um desses nomes representa para o futuro do Brasil. Segundo, voto em Dilma porque que acredito que ela avançará em relação às ações implantadas pelo governo Lula em especial na educação, área em que eu atuo há mais de 20 anos. Nesse ponto, creio que Lula foi muito superior a FHC e que Dilma o será em relação à Serra. Gostaria que vocês também votassem em Dilma por esses e outros motivos. Gostaria que colocassem na balança os prós e os contras do governo Lula e que decidissem o voto de vocês com base nessa ponderação. Para mim, apesar de haver pontos negativos, há mais pontos positivos. Penso em especial nos avanços no campo da educação. Para esclarecer sobre esse assunto reproduzo um trecho do documento assinado por 37 Reitores e 11 ex-Reitores de Universidades Federais e entregue a candidata Dilma. “Não aceitaremos o retorno de situações como a que predominou no passado recente, quando, na contramão da história, os orçamentos das instituições federais de ensino superior despencaram em 25%, relativamente aos seus valores históricos, com o sucateamento correspondente do parque universitário federal. As políticas públicas do atual Governo com firmeza e decisão tomaram a Universidade federal como opção de referência em qualidade e de integração nacional. Os avanços são inegáveis: recuperação orçamentária; expansões com a criação de quatorze novas Universidades e mais de cem campi em todas as regiões do país, fora das capitais; criação da Universidade Aberta do Brasil, que em breve proporcionará seiscentas mil novas vagas no sistema público federal; liberação de recursos para novos investimentos, como laboratórios, bibliotecas e salas de aula; aumento real dos orçamentos para ciência, tecnologia e inovação. Nesse âmbito, um exemplo de grande expressão é o Programa de Apoio aos Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), com investimentos na ordem de oito bilhões de reais. Até 2012 serão 93.319 novas vagas e 1.285 novos cursos de graduação. Destes, 696 são noturnos, 331 de licenciaturas, 640 de mestrados e 428 de doutorados. O total de matrículas gratuitas e de qualidade alcançará 1,1 milhão de alunos. Neste momento também não podemos deixar de mencionar que a reestruturação e a ampliação do financiamento dos hospitais universitários em muito colaborou para a melhoria da saúde pública, especialmente, para aqueles usuários mais necessitados.” Como podemos ver é inegável o crescimento dos investimentos na educação superior pública. Não é isso que todo mundo anda dizendo, que a educação é a base de tudo? Não vivemos cobrando que façam no Brasil o que foi feito em países como Japão, Coréia que viveram uma verdadeira revolução na educação que alavancou a economia, a cultura e qualidade de vida desses países? Agora que estamos no início dessa revolução no Brasil, vamos por tudo a perder? Meus caros alunos. O mais importante de tudo, seja qual for o seu voto, não se deixem levar pelo preconceito, pela indiferença às pessoas e pelo desrespeito à verdade, à ética e, sobretudo, à você e à sua capacidade de pensar por conta própria.
Um grande abraço. Marcelo Ennes
Escrito por marcelo às 14h44
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Para além da Casa Grande e da Senzala.
Há quatro anos trabalho em um campus da Universidade Federal de Sergipe que faz parte do programa de expansão do Governo Federal em Itabaiana localizado no agreste sergipano. Nestes últimos oito anos foram criados cerca 130 novos campi de Universidades Federais em todo o Brasil. Em quase sua totalidade, esses novos campi foram implantados em cidades do interior do país. Hoje o Campus de Itabaiana da Universidade Federal de Sergipe possui 100 professores efetivos. Esse corpo docente é formado, majoritariamente por professores doutores. Os mestres representam uma outra parte significativa dos professores. Pouquíssimos são apenas graduados. Pode-se dividir esse grupo de profissionais entre os mais jovens, recém doutores e mestres, e doutores e mestres que há mais de uma década trabalhavam na iniciativa privada. Enquadro-me entre esses últimos. Por 16 anos trabalhei em instituições privadas de ensino superior. O motivo principal que me levou a participar dos cursos públicos para docente nas Universidades Federais foi o fato das instituições privadas terem começado um processo sistemático de demissão de doutores. Esse quadro negava, e ainda nega, o princípio básico de que se deve estimular a qualificação profissional, no caso o doutoramento... O campus de Itabaiana conta atualmente com aproximadamente 2500 estudantes e em agosto de 2010 formamos as primeiras turmas de seus cursos de graduação. É importante que se diga, FORMAMOS as primeiras turmas. Muitos desses alunos passaram pelos programas de Iniciação Científica, Extensão e Monitoria da UFS. Espera-se, com isso, ir muito além de um simples diploma de curso superior. Para se ter uma idéia da importância desse feito, em 2000 praticamente 50% da população rural do Estado de Sergipe era formada por analfabetos funcionais e mais de 70% dos pais dos alunos que ingressaram no Campus de Itabaiana em 2006 eram analfabetos. Tenho esperança de que a presença da Universidade Federal de Sergipe em Itabaiana contribua, em médio e longo prazo, para aumento significativo do nível de especialização e capacitação da mão-de-obra, mas também, para a diminuição do número de homicídios, da violência contra a mulher e contra a criança e para o desenvolvimento e consolidação de uma cultura democrática na região do agreste sergipano. Devo ressaltar que os investimentos públicos para a implantação do campus de Itabaiana, cerca de 10 milhões de reais, tem sido objeto de intensa e rigorosa fiscalização do próprio governo federal por meio da Controladoria Geral da União (CGU) e de órgãos externos, como o Tribunal de Contas da União (TCU). Como diretor do Campus, tenho um número de celular e um cartão corporativo. O primeiro utilizo para contatos profissionais e o segundo para gastos emergências essenciais para a manutenção do campus. Minha conta limite do celular é de 100 reais e quando ultrapasso esse valor pago a diferença diretamente na conta da união. O uso do cartão corporativo é ainda mais restritivo. Os 1.600 reais que o campus dispõe (800 para compras e 800 para serviços) seriam impossíveis de serem usados em razão das restrições legais se não tivesse uma equipe formada por um contador e um administrador trabalhando em conjunto na gestão desses gastos. Esses detalhes são importantes para oferecer um contraponto em relação à idéia generalizada a respeito da corrupção do governo federal. Nenhum ato de corrupção ou de desvio de dinheiro público é justificável, mas fico me perguntando o que seria de todos esses investimentos do governo federal na educação superior nos últimos 8 anos sem que esses mecanismos de controle, parte deles do próprio governo federal, não existissem. Ou seja, esse mesmo governo que é acusado de corrupto foi que o intensificou a atuação de órgãos de fiscalização. Com base em minha experiência pessoal posso dizer que os investimentos públicos federais tem sido acompanhado pelos necessários, ainda que falíveis e insuficientes, mecanismos de controle e fiscalização. Relato essa experiência porque sei que muitas pessoas para quais enviarei esse texto não conhecem de perto a realidade que hoje eu vivo. Muitos dos meus ex-alunos e colegas de trabalho de São José do Rio Preto, Catanduva, Fernandópolis, Mirassol e Pereira Barreto no interior do Estado São Paulo tem acesso a realidade do nordeste brasileiro apenas por meio da imprensa ou em viagens de turismo. Por outro lado, percebo um desejo e uma tendência de negar o fato que o Brasil é desigual por motivos históricos e estruturais e de atribuir as causas da pobreza, da violência e da falta de perspectivas de futuro a motivos pessoais e individuais. Nessa mesma linha, é com indignação que vejo que parte da oposição à candidatura de Dilma à Presidência da República, em todas as regiões do Brasil, inclusive em Itabaiana, tem como únicos fundamentos o preconceito e a desinformação. Quero deixar claro que votar em Serra não é um crime ou o fim do mundo. É uma opção e um direito no contexto da democracia. O incomodo tem a ver com os argumentos, ou a falta deles. Por exemplo, as Igrejas tem feito campanha contra a Dilma por ela ter, supostamente, se declarado a favor da discriminalização do aborto. Ou seja, a candidata teria se posicionado, se realmente o fez, a favor do aborto deixar de ser um crime. Isso não quer dizer que ela, pessoalmente, seja favorável ao aborto. Mesmo que ela fosse, o presidente da república, na democracia, não tem como fazer valer sua opinião porque a democracia é o reino das leis e as leis dependem dos poderes instituídos. Discriminilizar o aborto não seria obra apenas do executivo, mas também do legislativo e do judiciário. Gostaria que o Serra se pronunciasse claramente a esse respeito, principalmente, porque ele se diz um especialista em saúde pública. Outro preconceito veiculado nos bastidores da campanha é que Dilma é homossexual. Particularmente defendo que a orientação sexual é assunto de fórum íntimo e pessoal. Do mesmo modo, compartilho com o princípio segundo o qual a competência e o caráter das pessoas independem do fato de serem mulheres ou homens, homossexuais ou heterossexuais. E o Serra como se posiciona a respeito de tema? Tenho ouvido que Dilma é bandida. Creio que isso esteja associado ao fato de Dilma ter sido fichada e presa durante o Regime Militar. Neste caso, existem várias possibilidades de interpretação. A primeira, com o qual discordo e me oponho, é o ponto de vista a partir do qual se faz essa afirmação. Isto é, se olharmos do ponto de vista do Regime Militar, de seus governos e das idéias e princípios que defendia, de fato, a Dilma pode ser vista com uma bandida. Afinal, ela se opôs a Regime Militar e ao Estado Ditatorial e por isso ela foi presa e torturada. Se você é a favor do Regime Militar e contra a democracia então, tudo bem, a Dilma é uma bandida mesmo. Mas existe outra possibilidade de pensar a prisão de Dilma. O Regime Militar implantou um Estado Ditatorial sem liberdades e garantias para o cidadão. Contra essa situação muitas pessoas lutaram, muitas foram presas e torturadas, como a Dilma; outras exiladas, como o Serra; e outras ainda, mortas. Dessa perspectiva, a Dilma não é uma bandida, para mim, nesse aspecto, ela é um exemplo, uma heroína. Preservou sob tortura o nome de colegas de militância e luta contra uma ditadura que afetava não apenas a vida dela, mas de muitos brasileiros. Gostaria de ouvir da boca do Serra se ele, como ex-exilado, também acha a Dilma uma bandida... Uma última confusão (para não dizer mentira) é que Dilma não governará sem Lula. Também fico pensando sobre isso. Acredito sinceramente que a Dilma tem qualidades técnicas e políticas para exercer a chefia do executivo brasileiro. Por outro lado, não se pode deixar de notar que a questão não é apenas o nome de uma pessoa. O foco, perdido, deve estar nos projetos políticos para o Brasil. Nesse aspecto vejo uma diferença substancial entre o projeto do PT e seus aliados e o do PSDB, DEM e seus aliados. A diferença pode ser ilustrada pelo crescimento do número de Universidades Federais e de seus Campi por todo o Brasil durante o governo Lula em contraposição o estado de calamidade que as mesmas universidades ficaram ao final do governo do FHC. O curioso é que o presidente intelectual quase destruiu as universidades federais e o presidente considerado analfabeto as ressuscitou. Em resumo, eu diria que o PSDB, DEM e seus aliados, representados por Serra, tem um projeto nacional elitista. Até acredito que eles pensam nos pobres. Mas eles pensam nos pobres como pobres, isto é, como uma parcela da sociedade que deve ser amparada e assistida, mas para continuarem a serem pobres para que outra parte da sociedade, bem menor, possam ter os benefícios da profusão dos bens e da sociedade de consumo. Isto é quase uma reedição da velha estrutura social brasileira baseada na separação entre a Casa Grande e a Senzala. É como um aluno meu disse certa vez, “professor, como pode existir ricos, se não existir pobres...” Ele não estava sendo irônico. O projeto do PT e seus aliados, representados por Dilma é diferente. É o projeto que leva universidade pública para o interior do país, para os filhos de analfabetos, é o projeto que cria esperança e expectativa de um mundo diferente, menos desigual e, por isso, melhor. Nesse projeto a pobreza não é condição para a riqueza, o analfabetismo ou a baixa escolaridade não são condições para o ensino superior público e de qualidade. É esse projeto que oferece condições para romper com a separação entre a Casa Grande e a Senzala ... É com esse Brasil que sonho e pelo qual luto diariamente morando e trabalhando em Sergipe em sala de aula, realizando pesquisa e projetos de extensão e dirigindo um campus da UFS no agreste... Por tudo isso e por acreditar que o caminho aberto por Lula é o melhor, mais justo, mais democrático é que defendo o voto em Dilma.
Escrito por marcelo às 19h50
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Por uma UFS competente e (auto) transformadora
O início da “Era da Cotas” deverá colocar na ordem do dia da Universidade Federal de Sergipe o debate sobre o modelo de universidade necessário e desejável para que se cumpra a finalidade inclusiva das políticas afirmativas. Representa, assim, uma importante oportunidade para se repensar e redefinir, em especial, as políticas acadêmico-pedagógica e de assistência estudantil. Existe um relativo consenso entre docentes de várias áreas de conhecimento que vê a necessidade de rever o modelo pedagógico dos cursos de graduação da universidade. É bom que se diga de modo claro que essa já é uma tarefa que está atrasada e já deveria estar em curso independentemente das políticas afirmativas. Trata-se de uma mudança que já deveria ter ocorrido e, agora, com as cotas, temos uma nova oportunidade de discutir e operacionalizar essa mudança. Claro que algo tão complexo não pode ter uma fórmula única para todas as realidades vivenciadas pelos cursos ofertados pela UFS. Mas é possível aqui propor alguns princípios norteadores. O fato é que é necessário reconhecer que muitos alunos ingressam na universidade sem conseguir ler e interpretar adequadamente textos (seja de Literatura, Sociologia ou um enunciado de Matemática ou Física) e, também, sem o domínio básico para se cursar cálculo I e outras disciplinas iniciais dos cursos da área de exatas. Se essa falta de “bagagem” dos alunos que ingressam na universidade é ruim, muito pior é a possibilidade deles saírem sem tê-la adquirido. Igualmente ruim, é a alternativa de manter os altos índices de reprovação e evasão em algumas disciplinas de alguns cursos. Isto é, não se pode conceber a aprovação e a reprovação de modo indiscriminado e naturalizado. A universidade como um todo e seus cursos dentro de suas particularidades precisam criar mecanismos que garantam aos graduandos a “base” necessária para que possam dar continuidade ao seu curso. Na prática, isso deveria significar que se o aluno não compreende o que lê, não consegue se expressar oralmente e por meio da escrita e não tem domínio sobre operações básicas da matemática, então ele não pode dar continuidade ao seu curso, sem que isso signifique reprovar o aluno. Uma saída pode ser a realização de uma avaliação inicial realizada pelos professores das disciplinas básicas, que definirá se o aluno será direcionado para prosseguir o seu curso, ou ingressar em um programa que lhe dê a “base” necessária. As estratégias de “nivelamento” deverão ocorrer no primeiro semestre letivo e podem unir alunos de diferentes cursos e diferentes áreas. A idéia é que dominem um conhecimento comum a todos que ingressam e se formam no ensino superior. Os alunos que demonstrarem o domínio adequado ou aqueles que cumprirem com sucesso o programa de “nivelamento” devem dar continuidade ao seu curso. Esse segundo momento carece também mudanças profundas. Sou formado em Ciências Sociais e sou lotado em um Departamento de Educação no Campus Prof. Alberto Carvalho em Itabaiana e, honestamente, com base em minha formação acadêmica e nos meus vinte anos de experiência no ensino superior, não vejo muito sentido em desenvolver os conteúdos de minhas disciplinas sem que elas estejam profundamente articuladas com a formação do profissional e do cidadão que o curso e o ensino superior deseja. É, portanto, necessário materializar um projeto pedagógico que materialize a tão decantada interdisciplinaridade e articulação entre o ensino, pesquisa e extensão que permitam a formação crítica e consistente. Existem propostas e iniciativas como a “Aprendizagem Baseada em Problemas” e a “Universidade Nova” que precisam ser estudadas para que possamos construir nosso “modelo”. Trata-se de iniciativas radicais que precisam ser pensada e executada com planejamento e bom senso. Por outro lado, essas mudanças estão em contradição, ao menos, com o modo de entrada e o tempo de saída da universidade. A primeira contradição orienta as provas dos vestibulares. Como podemos esperar alunos criativos, autônomos e críticos se seu ingresso é feito de uma prova com profundo caráter punitivo? É lastimável termos menos vagas do que as necessárias considerando a demanda existente, situação que se agrava com um processo seletivo que tende apagar e sufocar a capacidade de iniciativa e a energia transformadora da juventude. A segunda contradição refere-se a uma lógica generalizada de aceleramento dos cursos de graduação no Brasil todo, seguida pela UFS. Talvez isso seja possível, em um outro cenário, onde a educação básica possa cumprir com sua parte e que o pais como um todo já tenha rompido com uma inércia que nos mantém presos a uma tradição elitizada e elitizante do ensino superior e, portanto, que tenhamos superado o atual estágio de ilhas de excelência e oceanos de atraso. Mas para tornar possível esse “ajuste estrutural”, operado pela e no interior da universidade, é imprescindível a ampliação e consolidação da política de assistência estudantil nas universidades públicas e na UFS em particular. Aos alunos deve-se garantir condições de permanência na universidade para que não tenham a obrigação de cumprir dupla jornada dividindo seus dias e suas vidas entre o emprego e o estudo. Claro que não devemos impedir que o alunos possam trabalhar enquanto estuda, o que dentro do razoável pode até contribuir para sua formação. Mas se queremos um Estado e um País com uma base sólida no que diz respeito à formação e à qualificação de nossa mão-de-obra especializada devemos parar de dizer que os custos para manter esses estudantes na universidade é muito alto. Trata-se, na realidade, usando aqui o mote dos cursos preparatórios privados, de investimento e não de custos. Por sua vez, é necessário que a assistência estudantil esteja orientada por uma política de contrapartida, tema que deve, também, ser alvo de um amplo e democrático debate. Mas de início pode-se pensar no vínculo desses estudantes, quando necessário, aos “programas de nivelamento” (acima mencionados) e aos programas de monitoria, extensão ou iniciação científica entre outros. Como podemos notar, para que possa cumprir com seu papel transformador na sociedade sergipana, a UFS deve, ela mesma, auto-transformar-se. Essa parece ser uma das chaves para o enigma sobre a incapacidade das universidades intervir com radicalidade na sociedade, ou seja, uma pessoa, um partido, um profissional, uma instituição não podem transformar algo, sem que transforme a si próprios.
Escrito por marcelo às 19h52
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Resposta à Cil.
Cara Cil, obrigado. Seu comentário possui dois pontos bastante interessantes. 1. Você diz que apesar de ser negra é contrário às cotas. Tudo bem é essa sua opinião e deve ser respeitada. Trata-se de uma situação complexa, pois as cotas surgiram como uma ação afirmativa para um grupo (não exclusivamente) do qual você compartilha mais do que a cor da pele, mas uma história. Entretanto, nenhum grupo é homogêneo em termos de idéias, valores e das maneiras que pensa e explica o mundo a que pertence. Mas a questão é: sua opinião é a predominante entre o grupo a que você evoca quando menciona ser negra? As políticas afirmativas é uma das reivindicações de movimentos organizados, como o Movimento Negro. Existem outros movimentos que se oponham às cotas que expressem opiniões como a sua? Se existe, qual das duas perspectivas predomina? Além disso, o fato de você ser contra desligitima a implanção dessa ação afirmativa? Vou comparar o que você disse com outras situações. Uma mulher que sofre maus tratados do marido e diz que isso é normal justifica e torna aceitável esse tipo de agressão? Uma pessoa negra que pratica atos de racismo, torna-o mais aceitável, ou normal? 2. É preciso entender melhor o que é democracia. Não se pode confundi-la com meritocracia. O sociólogo e jurista italiano Norberto Bobbio escreveu sobre a trajetória da democracia e mostra que o encontro entre o liberalismo, conjunto de idéias no interior do qual prosperou o mote “self made man” (algo parecido com “o homem faz a isso mesmo”), portanto, a meritocracia, encontrou-se com a democracia tardiamente, apenas no século XIX. Digo tardiamente porque os princípios do liberalismo surgiram no século XVII. A meritocracia é uma interpretação que a sociedade liberal tem dado à democracia. Mas é necessário que se diga, ela não é única e nem a mais correta. Em meus textos e respostas tenho insistido que a disputa (no esporte, no vestibular, na vida) só é justa quando ocorre entre correntes com oportunidades semelhantes. Quando isso não ocorre, dentro de uma perspectiva mais ampla e consistente da democracia, a disputa é desleal e injusta. Abraço.
Escrito por marcelo às 09h29
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Pouco para poucos, muito para muitos
A discussão sobre as Políticas Afirmativas nas Universidades, em particular das cotas sociais e “raciais” em Sergipe, ganhou novos contornos após a divulgação dos resultados do Processo Seletivo de 2010. É imprescindível que possamos manter esse debate em seu campo adequado, o da política. A política, de acordo com uma tradição que vem dos antigos, passa pelos modernos e chega aos contemporâneos, é o espaço do debate e das coisas públicas e comuns. Dentro dessa tradição, que não é única e nem a mais perfeita, o aperfeiçoamento da democracia tem a ver com sua capacidade de incluir o maior número de pessoas no debate e nos processos decisórios. A aprovação das Políticas Afirmativas da UFS contempla essas características. Primeiro foi fruto de estudos e discussões promovidas por pesquisadores. Não houve apenas uma oportunidade, mas várias em que a comunidade acadêmica (cujos membros são originários da sociedade sergipana) pudesse discutir as informações, os dados e as propostas. A decisão final coube ao Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão - CONEPE, órgão deliberativo máximo da Universidade Federal de Sergipe no que diz respeito às questões acadêmicas no qual os segmentos da comunidade acadêmica tem acento. Essa explicação é necessária para esclarecer que a aprovação das Políticas Afirmativas e a criação das novas regras para o processo seletivo da UFS percorreram um caminho lhe garante legitimidade e legalidade. Há, é claro, limites nesse processo. Mais limites NO processo e menos DO processo. Os limites observados no processo dizem respeito, por exemplo, ao revanchismo e a falta de cultura democrática existente no interior da sociedade brasileira e na universidade. Muitos não participaram das discussões e das decisões sobre as políticas afirmativas sob a alegação que se tratava de uma proposta do grupo político “x” ou “y”. Preferiram o isolamento como uma forma de lavar as mãos de um tema que é comum e público. Pior, até onde tenho conhecimento, não propuseram uma agenda alternativa. Muitos apostam na absurda alternativa de “deixar como está, porque sempre foi assim”. Entretanto, é também licito e legítimo que os indivíduos e os grupos contrários à cotas recorram às instâncias internas e externas da universidade e nesse sentido impetrem recursos e mandatos para corrigir injustiças que julgam terem sido vítimas. Assim, é a democracia conflituosa, tensa e com regras. Após a publicação do meu artigo anterior por alguns meios de comunicação e informação recebi alguns comentários, uns favoráveis e outros contrários. Gostaria de argumentar sobre duas idéias presentes de uma maneira ou de outra nos comentários contrários às cotas. O primeiro refere-se ao caráter discriminatório das cotas. Esse argumento parece ancorar-se em dois princípios. Primeiro: o de que o Brasil não é um país racista e que não existem diferenças “raciais” no Brasil. Segundo: as cotas criam e reforçam o preconceito racial. Quanto a esses princípios, é necessário entender que discriminação significa diferenciar, dar tratamento diferente. Ocorre que podemos discriminar positiva ou negativamente. A cor da pele é uma referência de discriminação negativa e foi produzida ao longo da história de nosso país a partir dos modelos de organização da produção de distribuição de bens econômicos e simbólicos. Basta olharmos a cor da pele das pessoas que freqüentam, por exemplo, em alguns bares mais elitizados de Aracaju e o das pessoas que utilizam os terminais rodoviários da cidade. Há ou não uma diferença? Como se explica a concentração de grupos de pessoas com cor de pele diferente em lugares demarcados pelo poder econômico e pelo status social? É uma questão de mérito ou capacidade pessoal? As cotas também criam grupos distintos. Mas, ao contrário, as cotas produzem uma discriminação positiva, pois ampara no lugar de rebaixar, promove ao invés de inferiorizar. Enquanto não houver oportunidades semelhantes para todos, a chamada “igualdade” pode gerar e aprofundar distâncias entre os indivíduos e os grupos sociais. O fato é que o Brasil é um país racista sim. Mas não gostamos de reconhecer. Somos todos iguais para jogar bola, mas para freqüentar a universidade pública não. É possível constatar o quanto somos racistas exatamente nessas situações onde há poucos recursos (no caso, vagas) para muitos. O segundo princípio é o de que é necessário melhorar a educação básica pública brasileira. Concordo com ele, mas não com a idéia de que devemos melhorar primeiro esse nível da educação para depois pensar no acesso ao ensino superior público. Esse raciocínio parece ser coerente, mas não dá conta de que a melhoria da educação básica não é algo se faça em curto prazo. É arriscado, mas digo que tem havido melhorias na educação básica pública o que pode ser sinalizado pela criação de indicadores de qualidade, do PDE, do piso salarial nacional para professores, pelo crescimento dos investimentos para aquisição de computadores, bibliotecas etc.. Agora, considerando que essas iniciativas estejam em andamento, quantos anos serão necessários para que os resultados apareçam? Cinco, dez anos? E enquanto isso o que acontece com a maioria dos alunos provenientes da rede pública? Continuam preteridos por sistema baseado puramente na quantidade de pontos que se faz em uma prova? Mais do que isso, quanto tempo teríamos no Brasil de esperar para formar pessoas de classes sociais econômica e culturalmente descapitalizadas em cursos superiores de qualidade e concorridos? Seria justo pedir a essas pessoas esperarem ainda mais? E quais os custos sociais, culturais, econômicos, políticos e éticos para nossa sociedade de tão longa espera? Por outro lado, ao analisar os dados sobre a concorrência no processo seletivo de 2010, disponível na página da internet da Comissão de Concursos e Vestibular da UFS, é possível verificar alguns aspectos interessantes. Um deles é o fato de que a relação entre candidato e vaga do grupo B (cotistas do ensino público) é no geral maior do que a relação de candidatos do grupo A (não cotistas). Para os que defendem a meritocracia, fica a constatação de que os candidatos do grupo B enfrentaram uma concorrência interna maior do que a do grupo A. A relação entre candidato vaga do grupo C (cotistas do ensino público + “raça”), por sua vez, é maior que a relação geral de candidatos/vaga (total de inscritos/por número total de vagas). Portanto, também nesse grupo, os candidatos enfrentaram uma concorrência maior do que enfrentariam em uma situação sem o uso das cotas. Trata-se de uma análise de um dos aspectos do processo seletivo e que não leva em conta a pontuação dos candidatos. Mas quem olha da perspectiva da pontuação, não considera que os membros de cada grupos possuem maior ou menor volume de informações adequadas para a aprovação no vestibular da UFS. Assim, verificamos um dos pontos positivos do sistema de cotas: nivelar a disputa, ao criar grupos de concorrentes com trajetórias familiares, escolares e sociais mais semelhantes entre si. Outro dado interessante é a oscilação da concorrência entre cursos considerados para poucos e os considerados mais acessíveis. Para ilustrar vale comparar o curso de Medicina com o de Serviço Social. A construção social sobre que tem “direito” a esses dois cursos pode ser uma das explicações para a concorrência no curso de Medicina ser mais elevada no grupo A e menos no grupo C. Ao passo que, no curso de Serviço Social, a concorrência no grupo A menor em relação aos grupos B e C. Essa situação ilustra bem a seleção feita antes do vestibular e contribui para certas “distorções” com a “baixa” concorrência no grupo C para Medicina. Quer dizer, mesmo com as cotas muitos jovens não investiram na seleção para Medicina como para outros cursos possivelmente em razão de um sentimento inculcado de que esse não é curso para eles. Com essa primeira edição do processo seletivo com cota, isso deve mudar já no próximo ano, a concorrência deverá aumentar e, possivelmente, a pontuação em cada um dos grupos. Atenho-me na questão dos pontos e do mérito porque esse foi um outro argumento muito utilizado pelos leitores de meu primeiro artigo e que me escreveram expondo suas discordâncias sobre o meu ponto de vista. Mas é necessário reconhecer que se existe uma idéia de “mérito” implícita na concepção das cotas como política afirmativa, ela é muito mais ampla do que a traduzida pela pontuação no processo seletivo e abarca as trajetórias sociais dos candidatos e de seus pais e avós. Por sua vez, é essencial que não adotemos uma postura revanchista com o início do funcionamento do sistema de cotas. Por isso, a minha tristeza e angústia explicitadas em meu artigo anterior. Mesmo sendo injusta, muitos jovens (e seus pais) foram criados e educados dentro de uma lógica individualista que foi questionada na prática pelas cotas. Fico feliz que tenhamos tomado essa decisão porque isso sinaliza para um País melhor e mais equânime. Mas não existem motivos para espezinhar, tripudiar e zombar da chamada elite e de seus filhos. Não se pode tomar essa vitória como uma vingança de classe. A indiferença, a ironia e o desprezo são sentimentos dessa mesma elite que domina e controla nosso país. Se defendo que isso acabe, defendo também que os novos sentimentos e os novos valores não sejam os que nortearam historicamente nossas relações pessoais e coletivas. Para mudar o “jogo” é necessário vencê-lo primeiro, mas isso não pode ser feito com as mesmas “armas” do adversário sob o risco de, mesmo vencendo, não avançarmos uma nova direção de uma nova sociedade. Precisamos ir além da máxima maquiavélica dos “fins justificam os meios”, é preciso considerar, como Hebert Marcuse, que “os fins são operantes nos meios”. De resto, o mundo da democracia é, em parte, nebuloso mesmo. Os caminhos e as saídas não estão pré-definidos, são encontrados e negociados contínua e permanentemente. Certezas e verdades absolutas só tem nos levado a ditadura, ao totalitarismo, ao genocídio, à destruição e à morte e tudo isso é injustificável e inaceitável independentemente do grupo, da classe social, da religião ou da ideologia. É necessário termos idéias claras, ações firmes, sem que haja espaço para a raiva, ódio ou prepotência. Precisamos manter o diálogo com todos os setores da sociedade e garantir mecanismos institucionais para fazer valer a vontade da maioria, sem que haja o silenciamento dos vencidos. Aliás, foi, também, nome dos que foram “silenciados” em nossa história que as cotas foram pensadas e implantadas. Para concluir gostaria de ressaltar três pontos. O sistema de cotas é, e deve continuar, sendo concebido e executado como política provisória. Mantê-la de modo permanente seria distorcer com sua finalidade e comprometeria sua eficácia. O tempo de sua existência é o tempo que a sociedade (no sentido amplo que inclui os governos) dispõe para amenizar as diferenças estruturais e gerar oportunidades mais equânimes. Caso contrário, correríamos os riscos conhecidos, e amplamente criticados, das políticas assistencialistas. O processo seletivo da UFS precisa mudar urgentemente. Não é possível que continuemos estimulando o condicionamento de nossos jovens para responder se as sentenças são falsas ou verdadeiras e serem penalizados pelo erro. Continuo defendendo a adesão da UFS ao Enem. A UFS precisa com urgência discutir, definir e implantar ações no campo pedagógico e da assistência estudantil que garantam a permanência de alunos sócio, econômica e culturalmente vulneráveis sob o risco de anular os efeitos das cotas e sua importância para a democratização do acesso à universidade público.
Escrito por marcelo às 11h53
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Resposta para Marcos
Caro Marcos. Como não consegui postar o texto no espaço do blog destinado às respostas, resolvi colocá-lo aqui mesmo. Caro Marcos. Desculpa-me se não respondi às suas indagações. Mas vamos lá. 1. Você está insinuando que o título do meu artigo tem a ver com o governo? Pode ter certeza que não tem absolutamente nada a ver. Em nem um momento do meu texto eu falo que é prá todos. Mesmo porque nunca foi. Era muito menos, agora é pouco mais. No campo do pensamento político, há uma tradição de entender a democracia como governo de muitos e não governo de todos. Se algum governo usa essa idéia (a de governo de todos), por favor, não me responsabilize. Trata-se de uma simplificação. Agora, você precisa conhecer as estatísticas. Apenas 3% da população brasileira em idade de ingressar na universidade tem acesso ao ensino público. Pô, 3% não é pouco, é muito pouco. 2. Marcos, em meu texto eu expressei meu sentimento de tristeza. Não é da boca prá fora, é verdade. Principalmente, em relação a casos como o seu. Jovens dedicados, estudiosos, que se viram frustrados em uma tentativa de ingressar na universidade. Vejo que você é inteligente, e por isso deve saber que existem muitos outros jovens que também estudaram dia e noite, noite e dia e não entraram na universidade. Tenho certeza que seu esforço será recompensado, mesmo porque esse governo que você critica tem criado novas universidades, novos campi e novos cursos. Há ampliação de vagas e tem havido investimentos no ensino superior. Logo você estará no lugar que você merece. 3. Também tem ocorrido investimentos na educação básica pública. Foram criados indicadores de qualidade, instituído o piso salarial para professores, as escolas tem recebido recursos para biblioteca, laboratórios e reformas do prédio. É suficiente? Possivelmente não. Mas não estamos no mesmo lugar, temos caminhado. Agora essa melhoria é demorada. Quanto tempo vai demorar? Você está indignado porque perdeu esse vestibular, com razão. Agora eu pergunto quantos vestibulares os jovens do ensino público perderão até que estejam em condições de competir com os vestibulandos do ensino privado? As cotas é uma medida provisória. É uma medida emergencial. 4. Por falar nisso, olha você não me conhece. Eu sou professor universitário, não ganho o melhor salário do mundo não. Sou doutor estudei toda minha vida e continuo estudando. Ganho menos que muita gente que não tem curso superior. Tenho três filhos. Todos estudiosos, como você. A mais velha fez vestibular esse ano e não foi aprovada. Tentou Direito agora vai tentar medicina. O meu filho do meio entrou no primeiro ano do ensino médio e já está às voltas com o vestibular e o mais novo está no terceiro ano do ensino fundamental. Olha, eu posso lhe dizer por experiência própria. Eu sei sim o que é manter filhos na rede privada. Fico revoltado porque todo mês vem um desconto imenso no meu contra cheque de impostos que deveriam garantir uma escola pública de qualidade. É a mesma coisa com a saúde. Mas meu caro, a gente não pode pensar tudo só do ponto de vista pessoal. A gente tem que pensar de modo mais amplo. Bom, eu já tenho meus 44 anos e você é jovem. É compreensível que tenha menos paciência do que eu. Espero ter respondido suas questões. Abraço
Escrito por marcelo às 11h47
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Injusto para poucos, mais justo para muitos.
No dia 15 de janeiro de 2010 foi divulgado o primeiro resultado do processo seletivo da Universidade Federal de Sergipe da “Era das Cotas”. Aprovado pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFS, o sistema deve vigorar por 10 anos. Fui um dos conselheiros que defendeu e votou favoravelmente pela implantação do Programa de Ações Afirmativas, mas digo que não há razão para me sentir feliz e satisfeito com os resultados do vestibular. Claro que continuo apoiando a proposta e não me arrependo do meu apoio e voto. Mas o fato é que muitos jovens que se inscreveram e fizeram as provas não foram aprovados. Esse meu sentimento conflitante expressa, na realidade, uma contradição maior de nossa sociedade. Nossos valores reforçam idéias e práticas voltadas ao sucesso como se isso fosse fruto exclusivamente do esforço e do sacrifício pessoal. Trata-se da expressão daquilo que Stuart Hall classificou como “sujeito soberano” que caracterizou os séculos XVIII, XIX e parte do século XX, mas que permanece à disposição para compor argumentos e justificativas tanto pessoais, quanto coletivas sobre o modo de vida contemporâneo. Esses valores estão em todos os lugares, nas escolas, nos lares, nas comunidades presenciais e virtuais, nas empresas públicas e privadas, nas religiões ... Enfim, atravessa a sociedade como um todo. São esses valores que geram indignação, revolta e sentimento de injustiça em relação ao resultado do processo seletivo recentemente divulgado: “Como pode ser possível não ser aprovado se eu fiz mais pontos do que alguém que fez menos e passou no vestibular?” É verdade, isso pode ser injusto na perspectiva de quem nasceu e aprendeu que o importante é chegar em primeiro lugar, ou mais próximo dele. Essa aprendizagem, como de resto todas as outras, não ocorre apenas por aquilo que é dito por meio de palavras pelos pais, pelos professores e pela mídia em geral; ela ocorre por meios mais sutis e nem por isso menos coercitivos e dolorosos como a exclusão de grupos de amigos, o sentimento de fracasso e de ter decepcionado pessoas que amamos e admiramos. Por isso, o adjetivo “perdedor” é tão poderoso na demarcação das fronteiras entre os aceitos e os não aceitos em nosso mundo. Esse é um rápido argumento sobre apenas um dos aspectos que podem explicar a tristeza e a indignação de muitos vestibulandos, pais e, também, de parte da população brasileira em geral. A outra face dessa realidade é a naturalização da idéia de que “certas coisas não são para todos”. Seguindo esse raciocínio, é comum ouvir que a universidade não é e nem precisa ser para todos. Os defensores desse argumento alegam, por exemplo, que na Europa o ensino técnico é muito valorizado e por isso nem tudo mundo precisa cursar universidade para ter uma carreira profissional e uma vida digna. A ironia desse argumento está no fato de que ele é usado no Brasil, na maioria das vezes, por aqueles que fazem ou já concluíram a universidade. Entretanto, trata-se de uma dissimulação para expressar o desejo de manter o acesso à universidade (em especial, a pública) para poucos. O que está em jogo, conscientemente ou não, é a manutenção de um privilégio. Creio que as cotas parecem injustas para aqueles que, deliberadamente ou não, seguiram a tendência privatizante e individualista e acabaram por optar por soluções individuais para problemas coletivos. Por exemplo, sob a justificativa de que o ensino público não tem qualidade optou-se pelo ensino privado. Entendo essas “escolhas”, mesmo porque eu também a fiz. Mas o fato é que viramos as costas para um direto comum, o da educação básica, e transformamos isso em um privilégio, numa competição em que os competidores são os nossos filhos. Por isso tem-se a impressão de que foi-se lesado, injustiçado. É como se o juiz da partida roubasse o resultado e desse a vitória a quem não merecia. No entanto, é preciso reconhecer que essa não é toda a história. Existem outras tristezas, outras frustrações e outras decepções sobre as quais não há os holofotes da mídia, não ressoam nos colégios pagos e nem é divulgado por órgãos ou por pessoas formadoras de opinião. Para justificar meu apoio ao sistema de cotas vou aqui utilizar o esporte como metáfora. Todos sabem que na Fórmula 1 o vencedor é o que alcança em primeiro lugar a linha de chegada. Todos, também, devem estar acostumados com a disposição dos carros no momento da partida. Eles não estão alinhados, mas constituem uma fila dupla. Os mais fanáticos pelo esporte entendem como essa fila é constituída, e muitos acompanham os chamados treinos de classificação. São nesses treinos que se define o “grid” de largada onde os pilotos e suas equipes que conseguem os melhores tempos, garantem as melhores posições no momento da partida da corrida. No vestibular, como na Fórmula 1, os “competidores” possuem posições de largada diferentes, mas a linha de chegada é a mesma. É claro que quem sai nas filas de trás precisa correr muito mais dos que saem na frente que, por sua vez, tem maiores chances de sagrarem-se campeões. Essa metáfora é uma simplificação e é incapaz de evidenciar que as equipes que estão na Fórmula 1 já são pré-selcionadas. Muitas equipes, sequer conseguem participar da competição já que é um esporte muitíssimo caro mesmo para empresas e pessoas poderosas economicamente. O que estou tentando dizer é que disputa no vestibular é na realidade bem mais difícil do que na Fórmula 1. A classificação nos processos seletivos não começa com o início das provas, nem mesmo começa no cursinho ou no segundo grau. Os treinos começaram com os avós e com pais de cada concorrente de quem herdaram de modo inconsciente uma bagagem cultural e escolar que os posicionam na competição do vestibular. É muito significativa a relação entre candidatos aprovados em vestibular para cursos mais concorridos e o nível de escolaridade dos pais. A regra é, quanto maior a escolaridade dos pais maior as chances dos filhos serem aprovados nas universidades públicas. Seguindo esse raciocínio, muitos jovens de nosso país sequer sonham em fazer um vestibular e cursar o ensino superior. São como aquelas pessoas que ao menos tiveram chances de constituir uma equipe para disputar as corridas de Fórmula 1. Quem olha desse ângulo enxerga que existem outras injustiças além daquelas praticadas contra quem aprendeu que a saída é individual e que o reconhecimento social passa pelas “vitórias”. O sistema de cotas deverá promover uma mudança significativa na sociedade brasileira. Ao garantir que estudantes oriundos de estratos sociais menos favorecidos cheguem na universidade, poderemos aumentar, em curto prazo, o número de brasileiros com nível superior que, seguindo a tendência, terão seus filhos cursando, também, cursos superiores. Romperíamos assim o ciclo vicioso que hoje impera estaria quebrado ou, ao menos, enfraquecido. Teremos um país melhor e mais equânime. ´ Parte dos jovens educados com base no valor “dar-se bem na vida” e que ser vencedor é fruto apenas de esforços pessoais e individuais, não foram aprovados nesse último processo seletivo da UFS mesmo obtendo notas maiores que alguns dos candidatos cotistas. É necessário dizer para esses jovens e para seus pais que logo estarão na universidade. Se não passaram agora passarão no próximo, é uma questão de tempo. É, também, necessário dizer a toda sociedade que agora, graças às cotas, milhares de outros jovens que foram educados que a universidade não era para eles, começam a vislumbrar uma chance, ganharam um horizonte de vida do qual eram privados pelo velho e excludente funil do vestibular. Por isso, é necessário reconhecer que se o sistema de cotas é injusto para poucos, é pelo menos, mais justo para muitos.
Escrito por marcelo às 13h31
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BIG BROTHER NA ESCOLA? NÃO!!
Marcelo Alario Ennes
Vi pela televisão uma reportagem sobre a utilização de web cam em uma escola de ensino fundamental e médio em Aracaju. Pelo o que vi, a iniciativa está restrita ao ensino fundamental e de série de iniciais e o objetivo é disponibilizar imagens em tempo real aos pais por meio da internet.
A abordagem dada pela reportagem sobre o acontecimento foi de deslumbramento. Mas, a reportagem entrevistou uma psicopedagoga que, em contrapartida, oferecia uma visão bastante crítica. De um lado, a jornalista ressaltava a praticidade de pais acompanharem seus filhos na escola por meio da internet. De outro, a entrevistada, alertava para o risco de distanciamento ainda maior dos pais em relação à escola e aos seus filhos. No final, a reportagem cumpriu com sua missão, aparentemente esclarecedora, de demonstrar os prós e os contras dessa “nova novidade”.
Gostaria de ser menos imparcial e dizer que essa idéia é um equívoco. Trata-se mais uma aposta nas promessas libertadoras das novas tecnologias.
Nesse ponto, talvez fosse interessante relembrar que grande parte das inovações tecnológicas é justificada pelos benefícios que supostamente traria à humanidade: máquinas para produzir e poupar o homem do trabalho bruto; computadores para libertar o homem de suas “prisões” cotidianas (escritórios, salas de aulas, supermercados, bancos etc.).
Mas sempre “esquecemos” de questionar sobre como, por quem e para atingir quais finalidades essas inovações tecnológicas estão sendo introduzidas em nosso cotidiano.
Não se trata de fazer apenas uma crítica à escola que implantou as web cam em suas salas de aula. Ainda menos, fazer o discurso contrário inovação tecnológica. Eu não estou defendendo a idéia de que a tecnologia é, em si mesma, um mal. O que questiono é a postura de deslumbramento acrítico em relação à tecnologia como se fosse uma “magia” para solucionar nossos problemas. No caso das web cam nas escolas, não existe soluções, mas complicações dos problemas existentes.
1) A instalação das web cam nas escolas representa um flagrante desrespeito a autonomia dos professores em sala de aula. O sucesso do chamado processo ensino-aprendizagem passa, inclusive, pela relação de confiança entre professores, alunos, pais, gestores e comunidade. Sem isso, esqueçam! O professor não deve ser monitorado em seu trabalho. Pode e deve ser avaliado, como todos os participantes do processo. Mas não pode pairar dúvidas sobre sua competência e sua responsabilidade.
2) Sala de aula e escola, como muitos educadores vem insistindo e a história, insistente e infelizmente contestado, não é cadeia. Salvo, por motivos estritos de segurança do corpo social da escola, não existe justificativa para instalação de câmeras ou web cam.
3) Ainda que seja muito sedutor, a escola não é palco para espetáculos. Professores não são artistas e alunos não são nem coadjuvantes e nem espectadores desses espetáculos. Nossas crianças ficam lindas no monitor, mas não nos enganemos, não podermos viver uma eterna representação. Além disso, como se não bastasse o lixo televisivo dos “reality shows”, querem transformar as escolas em Big Brother. Vamos ensinar o quê? Joguinhos e dissimulações!? Vamos aprovar os alunos que melhor sabem fazer esses “jogos”? Nosso modelo é o Alemão!? Estamos banalizando, também, a educação!!
4) A introdução de “web cam” esconde uma outra dissimulação. Aparentemente é uma iniciativa de caráter prático para que os pais possam acompanhar o dia-a-dia de seus filhos na escola. Mas isso é feito sem o menor pudor reflexivo. Se o pai não tem tempo, resolvemos o problema com a inovação tecnológica. Com isso empurramos ainda para mais longe da superfície espetacular dos “reality shows” as origens e as causas da falta de tempo dos pais. Trata-se na realidade de uma sociedade que nos submete a rotinas massacrantes e individualizadas de luta pela sobrevivência material e simbólica. Pelo arroz, pelo feijão e pelo leite de nossas crianças que, agora começamos a ver por meio da web-cam. Mas, também, pela roupa de grife, do celular mais moderno, do carro do ano mais sofisticado, pelo luxo e ostentação.
5) Certo, vão dizer que isso é ladainha de “pseudo intelectual de esquerda”. Aliás, assunto a ser tratado pelo IBAMA, já que essa é uma espécie em franco processo de extinção. Mas fica o desafio. Vamos inverter as coisas? Tiramos as web cam das escolas e as reinstalamos em nossos ambientes de trabalho. Ficamos em casa cuidando de nossos filhos e família e trabalhamos com a ajuda da internet. Quem se interessa?
Escrito por marcelo às 20h47
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É obvio (será mesmo?)
É incrível como a impressa é irresponsável. A onda, agora, é a violência. Ficamos reféns das interpretações de William Bonner, Fátima Bernardes e, pior, dos comentários de Renato Machado e Alexandre Garcia (bom, pelo menos, não tenho visto nem ouvido o mestre do simulacro, Arnaldo Jabor). Isso sem falar nos programas sensacionalistas que misturam jornalismo e entretenimento numa “bela” salada temperada com muito sensacionalismo, preconceito e desinformação.
Fico com vontade de dizer que eles não sabem o que estão falando, mas isso não é verdade. Eles sabem muito bem o que estão falando, o que não fica claro é que seus objetivos não é informar, esclarecer, ajudar a encaminhar soluções para esse problema tão grave. Parece, ao contrário, que seus objetivos são disseminar o medo ao confundir os telespectadores e ao reforçar a sensação de impotência e de fatalidade. Para esse tipo de imprensa só há uma solução: procurar outras fontes de informação, de formação e o velho e bom senso crítico.
Mas não quero falar da mídia, quero falar mesmo é sobre essa modalidade de violência, os crimes (homicídios, latrocínios). A sensação é que isso não tem mais fim. A cada edição dos telejornais novos casos são divulgados como se nada pudéssemos fazer, como se fossem obra do acaso, uma maldição. E como se fossem algo absolutamente novo. É quando surgem propostas de solução como a diminuição da idade penal, que na verdade, não é solução coisíssima nenhuma, é um embuste, uma protelação, uma resposta violenta à violência que nos assola.
O curioso é que a mídia, ou quase toda a mídia, não pergunta sobre as causas e as origens desse estado de coisas que vivemos. E, muito menos, dão respostas para essas questões. Por de trás desse silêncio, existe a desconfiança de que perguntar sobre as causas e origens do problema da violência é pura perda de tempo. Precisamos mesmo é de solução, solução com “S” maiúsculo. Como se pudéssemos chegar até ela sem percorrer o, nem sempre rápido, caminho do conhecimento.
Entre os que querem respostas sem conhecer as causas, há as almas bem intencionadas. Ou seja, aquelas que não ganham nada com violência, aliás, perdem muito (vidas principalmente). Mas não sejamos ingênuos, claro que tem muita gente que ganha (dinheiro e poder, principalmente) com isso tudo. E essa gente toda não pode ser facilmente identificada como os bandidos ou os políticos (nem a mídia) ou qualquer outro grupo social previamente constituído e definido.
Já disse em outras oportunidades que o problema da violência, assim como da corrupção, do racismo, está disseminado entre nós, está enraizado em nossa cultura. Diz respeito, ainda que de modos e formas diferentes, a todos nós. Não posso deixar de pensar, que a violência hoje é um componente constituidor da sociedade em que vivemos. Faz parte dela, não é um elemento externo, alienígena, um espinho que pode ser facilmente retirado mantendo intacto todo o resto, ou seja, a estrutura da sociedade.
Fico tentado a dizer que isso tudo tem a ver com o capitalismo. Mas isso não seria muito esclarecedor e nada operacional. Mas desde o fim do socialismo real e o início do apogeu do neoliberalismo não ousamos dizer que o capitalismo, ainda que tenha triunfado no embate com o socialismo real, não é um sistema econômico justo do ponto de vista social.
Mas não vou insistir nessa idéia. Não agora. Fiquemos com um dos valores que caracteriza essa sociedade, ainda que não lhe seja exclusiva. A idéia e a prática de que os fins justificam os meios. Vejamos de modo simplista: qual é o fim de nossas atitudes nessa sociedade? O poder. Por qual meio? Pelo dinheiro, pela riqueza, pela ostentação. Como obtê-los? Pelo trabalho? Não necessariamente (já que é penoso, escasso e de resultados muito demorado). Qual o caminho mais fácil e rápido? A trapaça, o roubo, a corrupção. Como a violência entra nessa? Como meio de obter o dinheiro e a riqueza ou como meio de ostentação do poder.
Ações pontuais, ainda que necessárias, não atingirá essa lógica. A solução só é possível se mudarmos, transformarmos o mundo, a sociedade, o pais, a cidade, nosso círculo de amizade exatamente no mesmo momento em que nos auto-transformamos.
Precisamos reformar a sociedade em que vivemos. O problema (ou a solução dependendo do ponto de vista) é que nessa reforma algumas paredes, algumas portas, algumas janelas deverão ser derrubadas e outras erguidas. Não sabemos se a sociedade capitalista suportará tal reforma. É por isso que a reforma não é colocada em pauta e temos nos digladiar para decidir quais as rachaduras deve ser tapadas primeiro. Não temo tido a coragem e o interesse de olhar se o problema está no alicerce. Peço que me desculpem por esse esquematismo, por essa simplificação de uma realidade muito complexa, pela obviedade. Mas será obvio mesmo?
Escrito por marcelo às 10h14
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Inútil e injusto mesmo quando se pretende fazer justiça
No penúltimo dia de 2006 Saddam Hussein foi enforcado até a morte.
O ex-ditador iraquiano foi acusado e, ao que tudo indica, realmente matou centenas de pessoas, inimigos de guerra e inocentes. A sensação que fica, no entanto, é a de inutilidade e até de injustiça.
É verdade, e aqui não pretendo defender o contrário, que Saddam Hussein, aos olhos e de acordo com os valores do mundo ocidental ou de seus inimigos locais, era um ditador e um governante impiedoso. Apesar de tudo isso a sua execução, se raciocinarmos de modo muito pragmático, ao invés de resolver um problema, pode, manter e agravar os já existentes, como o ódio entre sunitas e xiitas, e, pior, criará novos, que por sua vez dará origens a outros, futuros, completamente inimagináveis nos dias de hoje. Isso já aconteceu outras vezes e a imprensa e os chanceleres do mundo todo alertam sobre o perigo de transformar Saddam em um mártir. Quantas novas mortes a de Saddam Hussein custará? E cada vez ficará mais difícil separar os inocentes dos não inocentes...
Existe uma outra questão, menos pragmática, talvez de critério. Os EUA, após a invasão, constituíram um novo governo no Iraque. Foi nos tribunais desse novo governo que Saddam Hussein foi julgado, condenado e executado. A questão que me refiro diz respeito à aplicação dos mesmos critérios utilizado no processo que resultou no enforcamento, contra os seus executores. Um julgamento, nas mesmas bases, de George Bush, só seria possível em uma obra de ficção ou, claro, nos desejos cada vez mais explosivos dos fundamentalistas islâmicos. George Bush resistiria a esse tribunal? Quer dizer, continua viva e pertinente a pergunta: quem controla os controladores? Como se vê, trata-se de uma questão de poder, política, portanto.
Além dos problemas pragmáticos e políticos, existem ainda aqueles relacionados aos dos princípios. Nesse aspecto, é impressionante, por exemplo, que a execução foi cercada, segundo a mídia, do mesmo ritual seguido pelas promovidas por Saddam Hussein durante o longo período em que se manteve a força no poder. Usa-se, assim, a mesma pena, o mesmo ritual de morte daquele que foi condenado exatamente por se valer desses expedientes em seu longo governo. Usa-se da mesma arma do inimigo e, por isso, até que ponto os executores não se tornam semelhantes ou iguais ao executado?
Como se vê, sob todos os ângulos, foi uma morte inútil. E por ser morte, por si mesma, foi injusta.
Escrito por marcelo às 21h08
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O feitiço contra os feiticeiros
Mesmo não que seja muito apegado aos ditos populares, reconheço que nessas eleições não há como negar que possuem um certo fundamento.
Vi no último domingo, logo que a reeleição de Lula parecia certa, uma série de entrevistas com assessores do candidato derrotado em que se dizia que o eleitor de Lula deu mais importância ao que se faz e não como se faz. Evidentemente estavam se referindo ao fato de que o “bolsa família” venceu o “dossiê”, o “mensalão” e os “sanguessugas”. Quer dizer, o prato de comida, venceu a ética.
De fato, isso pode ter acontecido, pelo menos em parte. Parte dessa parte é aquela que vive oprimida pelo cotidiano, em suas necessidades imediatas; aquela que não tem esperança e nem conhece o significado de um projeto futuro de vida. Para eles a sobrevivência é a questão do dia e a ética não faz parte dele. Aliás, a fome, a ignorância e a violência são marcas profundas da ausência da ética nesse país.
O mais interessante é perceber que esse estado de coisas foi criado nos últimos séculos pelas forças políticas que hoje são representadas por parte daqueles que apoiaram Alckmin. Foi a fome e a exclusão de uma parte significativa da população que a manteve presa às elites no passado longínquo e recente . Agora, esses mesmos motivos fazem com que essa mesma parcela do eleitorado vire as costas a essa mesma elite. Ironia do destino. Teria sido a indústria da fome e da miséria criado por parte da atual oposição, a responsável pela reeleição de Lula. Como se diz por aí “o feitiço voltou-se contra o feiticeiro.”
Há, pelo menos uma outra evidênciade, de que “o tiro saiu pela culatra”. A oposição procurou chamar à (uma suposta) razão o eleitorado por meio de evidências de corrupção no governo e no processo eleitoral. O problema é que essa razão não existe e não existe porque não foi permitida que, ao longo da história desse País, existisse. E por quem foi impedida, exatamente, e mais uma vez, por parte daqueles apoiavam a candidatura de Alckmin. Ironia, novamente. Talvez fosse mais adequado dizer que a “razão” que o tucanato exigia do eleitorado não foi a mesma que moveu uma parcela dos eleitores de Lula.
O problema é que Lula, PT e seus aliados não podem continuar a se alimentar do que foi criado pelas forças políticas a que sempre se opôs. Esse “feitiço” pode ter garantido a reeleição, mas se continuar vivo vai devorá-los de dentro para fora. E esse será um dos principais desafios do próximo governo. Como operar essa transição? Como atacar aquilo que, ao mesmo tempo, pode ter garantido a reeleição, mas mantêm uma parte considerável do eleitorado à margem da cidadania, ao passado e que nas reviravoltas da vida pode voltar-se novamente contra o Lula e o PT? Ou seja, será que se manterão como alternativa política numa situação sócio-econômica marcada pela inclusão da parte hoje excluída?
Temos aí uma lição e um desafio. O governo reeleito deve aprender com a primeira e enfrentar de peito aberto e coragem a segunda. Veremos o que realmente está em questão: a perpetuação no poder ou nação vista a partir dos mais pobres e dos excluídos?
Escrito por marcelo às 11h00
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