Marcelo Ennes
   CAMPUS DE ITABAIANA: PARA ALÉM DOS NÚMEROS.

 

 

 

Prof. Dr. João Juares Soares (Professor Visitante Nacional Senior- CAPES/ UFS-Campus Prof. Alberto Carvalho - Itabaiana)

Prof. Dr. Marcelo Ennes (UFS – Diretor do Campus e docente do Departamento de Educação de Itabaiana)

 

Dois textos, publicados recentemente, abordaram aspectos quantitativos sobre os ingressantes e os egressos nos cursos de graduação do Campus Prof. Alberto Carvalho. Um terceiro artigo explicitou algumas saídas para reverter a taxa de sucesso dos cursos de graduação do campus que acompanha o desempenho pífio da média nacional. No entanto, cabe indagar: Será que os dados quantitativos sobre os resultados obtidos e a reflexão dos mecanismos internos sobre suas causas e a consequente correção dos caminhos percorridos até o momento, ainda que importantes, foram suficientemente esclarecedores sobre importância do campus?

É necessário entender que a inserção do campus Prof. Alberto Carvalho em Itabaiana traz consequências muito positivas para todo o território agreste central sergipano e para o estado. Logo, é importante que se faça uma reflexão mais profunda para evitar possíveis interpretações e conclusões precipitadas na comunidade universitária e na sociedade em geral, ainda que estes textos tenham sido escritos com base em dados confiáveis e uma análise da realidade vivida no campus. Um exemplo de uma leitura equivocada destes textos seria a que levasse à conclusão de que há muitos investimentos públicos para poucos resultados. Assim, embora seja fundamental fazer uso de dados quantitativos, pois é um dos caminhos para corrigir erros, melhorar a qualidade e aperfeiçoar o sistema, é necessário ir além e avançar em relação à análise sobre as mudanças mais profundas que a implementação do campus está produzindo na sociedade e, consequentemente, na vida das pessoas.

A implantação de uma universidade ou de um campus universitário é uma semente que se planta e a colheita pode demorar. Mais do que isto, dependendo das condições do local e da época em que se planta, os “frutos” demoram maior ou menor tempo a serem colhidos. No caso em que se trata de “plantar” conhecimento em uma comunidade, temos que considerar aspectos que abrangem a cultura, as relações sociais, a religião a história e outros aspectos que interferem na existência e no modo de vida de uma sociedade.

É claro que ao implantarmos um campus em local em que já existe uma tradição de cultivo à ciência e à produção de conhecimento (por exemplo, criação de campus ou universidades em grandes centros) os resultados serão quase imediatos. Porém, o inverso acontece. Mas o que é o mais importante, plantarmos uma semente de árvore no meio da floresta ou em local desertificado? Desenvolver conhecimento em meio altamente qualificado no qual tem capacidade para evoluir autonomamente? Ou fazê-lo em local em que o conhecimento ainda é pouco desenvolvido? É importante que se diga que, não queremos, com estas perguntas, em nenhum momento, desqualificar a cultura e as tradições locais e regionais. Estamos nos referindo às culturas e tradições de uma sociedade sob o ponto de vista científico.

Devemos recordar, ainda, que outras universidades e campi, mesmo em regiões com maior número de instituições de ensino superior, vivenciaram um processo semelhante ao que está ocorrendo em Itabaiana. Em seus primeiros anos, a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), localizada no interior de São Paulo, local onde um dos autores deste artigo trabalhou desde o seu início, muitos cursos não chegavam a preencher o número de vagas ofertadas e em alguns cursos o número de formandos, anualmente, não chegava à meia dúzia. Hoje, a UFSCar é um centro de referência nacional em pesquisa, ensino e extensão. Na Universidade Estadual de Maringá - PR, a história se repetiu conforme informações de alguns de seus antigos professores.

Os exemplos destas universidades, hoje consagradas, nos ajudam a entender que se a consolidação de nossos cursos não ocorrerá da noite para o dia, o mesmo pode se dizer sobre a nossa capacidade de mudar sociedade. Ao contrário, este é um processo que dura por décadas. Os alunos formados atualmente serão multiplicadores de novos conceitos, de novas ambições e de novos desafios. Por sua vez, a velocidade das transformações depende muito desta consciência dos alunos, docentes, técnicos administrativos e gestores.

As mudanças em andamento estendem-se ao plano dos valores. Entre outros, destacamos a importância da formação de uma cultura acadêmica para a compreensão da importância do espaço público e do bem comum e que aos pouco possa criar uma nova visão de mundo e ensejar alternativas para uma tradição política, hoje predominante, baseada no interesse particular e no imediatismo. Do mesmo modo, entendemos que a vivência universitária representa uma oportunidade muito rica e importante para o combate ao preconceito, à violência contra a mulher e a crianças, além de ser imprescindível para construir caminhos para um tipo de desenvolvimento onde progresso econômico, o aumento de renda e a melhoria das condições materiais da vida não ocorram em detrimento da vida de plantas, rios e animais que habitam esta mesma região.

Algum tempo atrás, os filhos de agricultores do interior iam para a cidade em busca de oportunidades de emprego e poucos voltavam às suas origens. Um processo semelhante ocorreu com “filhos da terra” que partiam para realizar seus estudos e também permaneceram nas grandes cidades, devido a estes atrativos e à facilidade de atualização em suas áreas de conhecimento.

A interiorização do ensino superior público por meio da criação de campus universitário no interior dos estados da federação é uma verdadeira revolução silenciosa. Seus efeitos surtirão aos poucos e, quando já forem muitos então teremos um salto da quantidade para a qualidade. A presença das universidades públicas, em especial, tem sido um dos principais vetores de desenvolvimento no Brasil. Basta ver onde as condições de vida são melhores, onde o nível de escolarização é melhor, onde os direitos e os deveres dos cidadãos são mais observados, onde existem mais oportunidades e mais liberdade. Todos estes lugares têm em comum a existência de universidades.

Não se deve, portanto, analisar a importância da implementação de campus, como o de Itabaiana, apenas com base no dinheiro gasto e nos resultados quantitativos do número de formandos em curto prazo. Mesmo porque o investimento em educação sempre deve ser permanente e contínuo. Ao considerarmos trajetórias de grandes universidades da atualidade, não podemos tirar o direito das comunidades do interior de ter as mesmas oportunidades que outras cidades e regiões tiveram no passado e, além disso, não podemos nos furtar da responsabilidade de atuar neste processo.

(Este artigo foi escrito bem antes dos docentes da UFS decidirem entrar em greve por melhores salários e pelo plano de carreira. Os autores apoiam o movimento e entendem que estas são reivindicações justas e delas dependem a consolidação do campus, bem como, sua maior inserção social, cultural e político na região de Itabaiana).



Escrito por marcelo às 15h30
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