Marcelo Ennes
  

Crônica dos 45 anos.

Esta semana completei 46 anos de idade... Foi um alívio. Eu explico. Há mais ou menos 18 anos por uma dessas razões que a própria razão desconhece, deixei uma cigana ler minha mão. Foi assim: a cigana pegou a minha mão, a esquerda eu acho, e alisou-a como se quisesse limpar algo. Olhou por alguns segundos e disparou:

- Você tem duas mulheres em sua vida, uma loira e uma morena.

Como eu vivia uma fase entre um casamento e outro e de fato havia uma loira e uma morena na história, achei logo que a mulher era boa. Fiquei ali pensando espremido entre a desconfiança e a expectativa de um futuro promissor e dei mais tempo (e dinheiro) para a cigana continuar o estudo sobre as linhas desenhadas na palma de minha mão...

Após este começo promissor, fiquei na esperança de novas revelações e, como já tinha criado um vínculo de confiança com a cigana, aguardava, evidentemente, ótimas notícias.

Elas vieram. Mas em parte.

Segundos depois a cigana olhou novamente para mim e disse:

- Olha, quando fizer 45 anos você será um homem rico...

Mas antes que um sorriso de satisfação se formasse completamente em meu rosto, a nômade completou:

- Só que com esta mesma idade o senhor vai morrer...

E foi assim que a partir daquele momento em todos os anos que se seguiram eu me preparei para cumprir a sina. Enriquecer e morrer. Assumi uma autoconfiança muito forte, e a despeito de ter me formado e me tornado um sociólogo, mantive uma sólida certeza de que iria ficar rico.

Quanto minha sentença de morte... bem eu calculei que se ficasse bem rico, ao menos meus filhos e minha esposa não ficariam desamparados. Tratei de curtir o máximo os meninos e minha mulher e torci, por anos, que a cigana estivesse errada quanto a esta (apenas esta) previsão ...

Mas claro, não queria morrer tão novo e isso fez com que inúmeras vezes indagasse a mim mesmo sobre o que a mulher realmente teria dito “rico E morto” ou “rico OU morto. Repetidamente forcei a memória para ver se encontrava alguma possibilidade de engano, e de tal modo o “ou” prevalecer sobre o “e”.

De qualquer modo, por segurança, no início de meu 45º ano de existência nesta terra descartei logo a possibilidade de enriquecer já que a sociologia não me rendeu muito dinheiro e, o que poderia ser uma alternativa, sequer jogo na mega sena e nem em outras loterias.Mas a dúvida permanecia (“E” / “OU” e, portanto, minha morte não estava descartada), redobrei meus cuidados. Prestei mais atenção ao dirigir, procurei não me meter em encrenca no trânsito (é verdade que cometi algumas imprudências consideráveis, como começar, a esta altura do campeonato, a surfar)... O fato é que, também, não morri.

Para falar a verdade vivi muitas coisas no 45º ano de vida. Talvez eu tenha morrido em alguns aspectos para renascer melhor e enfrentar a vida com mais coragem e com certeza tenha ficado mais rico pelo fato da vida ter-me proporcionado conhecer e conviver com tantas pessoas queridas que hoje, próximas ou distantes, fazem deste mundo um bom lugar para se querer ficar.

...

Hoje completado meus 46 anos, olhando prá trás e pensando bem não há como não dizer que aquela danada da cigana não estava totalmente errada.



Escrito por marcelo às 13h22
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