Marcelo Ennes
  

Por que tudo que é inteligente tem que ser chato e tudo que não é chato tem que ser não inteligente? Ou para se falar de sexo.

 

Está bem. Desta vez vou ser menos diplomático do que costumo ser. Mesmo porque, não há outro modo de pensar, agir e escrever quando se trata de falar sobre assuntos que geralmente são tratados no âmbito do gosto pessoal. Este é o caso da música (e do sexo).

Faz algum tempo que ouvi o Caetano Veloso diferenciando música como arte e  música como entretenimento. A música como arte seria algo relacionado com a poesia, com sofisticação melódica, com o sublime ... O entretenimento sonoro não tem, necessariamente, estas qualidades.

Mesmo sem ser especialista do assunto, eu ousaria dizer que a música como expressão da arte tem um certo componente criativo e mesmo subversivo, ao passo que o entretenimento, ao contrário, quando muito, produz o pastiche da realidade e nos mergulha mais fundo na ordem estabelecida.

É provável que o próprio Caetano não reconheça hoje esta diferenciação, mas eu continuo apostando em sua utilidade. De qualquer modo, eu mesmo, ainda não mudei de idéia a este respeito.

Gosto muito música. Ouço desde muito novo artistas que considero de qualidade. Sempre achei possível chorar, rir, pensar, amar, me indignar ouvindo Chico Buarque, Chico Cesar, Chico Science e Nação Zumbi,  Paulinho da Viola, Beto e Lô Borges, Caetano, Gil, Cartola, Cazuza, Milton Nascimento, Noel Rosa, Tom Jobim, João Gilberto...e muitos outros e outras artistas.

Acho que as músicas e as letras destes artistas possuem características bem claras e que de modo algum podem ser equiparadas a certas manifestações do entretenimento sonoro a que a “sociedade para o consumo” vem chamando de música. Vamos comparar. Vamos pegar um exemplo de cada universo para ver a diferença. Vamos falar do tema com maior “ibope” no entretenimento sonoro: sexo. Comparecemos as músicas “Geni e o Zepelim” do Chico Buarque e a música “Chupa que é de uva. (seguem os links para acessar. http://letras.terra.com.br/chico-buarque/77259/ e http://letras.terra.com.br/avioes-do-forro/1186715/. Foi impossível postar as letras no blog)



Escrito por marcelo às 23h38
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Por que tudo que é inteligente tem que ser chato e tudo que não é chato tem que ser não inteligente? Ou para se falar de sexo. (Continuação)

Bom, o que há de comum? A referência ao sexo, certo? O que há de diferente, todo o resto. O vocabulário, o contexto e, claro, a possibilidade de ir além do imediato, de criar relações, conexões ... Mas acho que o fundamental (será possível falar em fundamental nestes líquidos tempos modernos) é que na letra do Chico o prazer não está única e exclusivamente localizado na genitália...

Vê-se logo que não estou aqui argumentando a favor do moralismo, ao que me oponho tão decididamente quanto ao “entretenimento sonoro” da “sociedade para o consumo”. Questiono apenas (mas sempre) o efeito desta manifestação midiática em nossa capacidade de pensar, de refletir, de questionar e de mudar a nós mesmo e ao mundo. Olha gente, não dá prá não bater na velha tecla da alienação...

Argumentos como estes meus tem recebido muita resistência. Em parte, isto se deve ao fato de vivermos no que se convencionou chamar de pós-modernidade, onde conquistas importantes como a crítica à idéia de superioridade cultural e a defesa do relativismo cultural foram recapturadas pelo pensar e fazer hegemônico de modo a fortalecer a ordem estabelecida (existe uma ordem estabelecida, mesmo que ela se manifeste de modo fragmentado, efêmero e volátil).

O direito ao gosto próprio tem sido utilizado para esvaziar o debate e destruir a dimensão política que prescinde, por suas características, da vida pública, aquela dimensão comum a todos. Por isto, o direito às nossas preferências pessoais não pode encerrar o diálogo, o debate, e, por que não, o enfrentamento de idéias que nos conduza a estabelecer parâmetros mais universais para promoção do bem comum.

É interessante, entre defensores do ecletismo, do direito a gostar “daquilo que bem entendemos” há muitos daqueles atacam e banalizam questões como as relacionadas às variações lingüísticas. Vide a polêmica (produzida) sobre o livro didático que ousou a dizer que é possível ensinar língua portuguesa por meios e caminhos diferentes daqueles construídos pela história oficial e pela cultura hegemônica.

Eu não gosto de tudo não. Não gosto mesmo. Prá tem música boa e música que não é música, é entretenimento. Aliás tem músicas que eu detesto, me deixam de mau humor e me travam. Se em uma festa em nome “de que devemos gostar de tudo um pouco” e pela vontade de alguma divindade pós-moderna começar a tocar ritmos que não me agradam eu paro de dançar e protesto: “toca rock and roll!!”, grito logo. Eu não sou obrigado a gostar de tudo... O pior é a censura velada ao debate sobre tantas questões culturais e políticas. O pior é não poder discordar. Pior ainda é discordar e não poder argumentar. Porque isto seria um “desrespeito” ao gosto alheio!!! Puxa vida, como dizia minha avó, “tenham dó”!!

Como esta conversa não tem fim, fico por aqui. Para me despedir volto ao tema do sexo e com alegria e com alguma (suposta) inteligência, deixo-os em companhia de Bertolt Brecht

O uso das palavras obscenas

Desmedido eu que vivo com medida

Amigos, deixai-me que vos explique

Com grosseiras palavras vos fustigue

Como se aos milhares fossem nesta vida!

Há palavras que a foder dão euforia:

Para o fodidor, foda é palavra louca

E se a palavra traz sempre na boca

Qualquer colchão furado o alivia.

O puro fodilhão é de enforcar!

Se ela o der até se esvaziar: bem.

Maré não lava o que a arvore retém!

Só não façam lavagem ao juizo!

Do homem a arte é: foder e pensar.

(Mas o luxo do homem é: o riso).

 

 

Vamos conversando...

 



Escrito por marcelo às 23h32
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