Marcelo Ennes
   Injusto para poucos, mais justo para muitos.

No dia 15 de janeiro de 2010 foi divulgado o primeiro resultado do processo seletivo da Universidade Federal de Sergipe da “Era das Cotas”. Aprovado pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFS, o sistema deve vigorar por 10 anos. Fui um dos conselheiros que defendeu e votou favoravelmente pela implantação do Programa de Ações Afirmativas, mas digo que não há razão para me sentir feliz e satisfeito com os resultados do vestibular.

Claro que continuo apoiando a proposta e não me arrependo do meu apoio e voto. Mas o fato é que muitos jovens que se inscreveram e fizeram as provas não foram aprovados.

Esse meu sentimento conflitante expressa, na realidade, uma contradição maior de nossa sociedade. Nossos valores reforçam idéias e práticas voltadas ao sucesso como se isso fosse fruto exclusivamente do esforço e do sacrifício pessoal.

Trata-se da expressão daquilo que Stuart Hall classificou como “sujeito soberano” que caracterizou os séculos XVIII, XIX e parte do século XX, mas que permanece à disposição para compor argumentos e justificativas tanto pessoais, quanto coletivas sobre o modo de vida contemporâneo. Esses valores estão em todos os lugares, nas escolas, nos lares, nas comunidades presenciais e virtuais, nas empresas públicas e privadas, nas religiões ... Enfim, atravessa a sociedade como um todo.

São esses valores que geram indignação, revolta e sentimento de injustiça em relação ao resultado do processo seletivo recentemente divulgado: “Como pode ser possível não ser aprovado se eu fiz mais pontos do que alguém que fez menos e passou no vestibular?” É verdade, isso pode ser injusto na perspectiva de quem nasceu e aprendeu que o importante é chegar em primeiro lugar, ou mais próximo dele. Essa aprendizagem, como de resto todas as outras, não ocorre apenas por aquilo que é dito por meio de palavras pelos pais, pelos professores e pela mídia em geral; ela ocorre por meios mais sutis e nem por isso menos coercitivos e dolorosos como a exclusão de grupos de amigos, o sentimento de fracasso e de ter decepcionado pessoas que amamos e admiramos. Por isso, o adjetivo “perdedor” é tão poderoso na demarcação das fronteiras entre os aceitos e os não aceitos em nosso mundo.

Esse é um rápido argumento sobre apenas um dos aspectos que podem explicar a tristeza e a indignação de muitos vestibulandos, pais e, também, de parte da população brasileira em geral.

A outra face dessa realidade é a naturalização da idéia de que “certas coisas não são para todos”. Seguindo esse raciocínio, é comum ouvir que a universidade não é e nem precisa ser para todos. Os defensores desse argumento alegam, por exemplo, que na Europa o ensino técnico é muito valorizado e por isso nem tudo mundo precisa cursar universidade para ter uma carreira profissional e uma vida digna. A ironia desse argumento está no fato de que ele é usado no Brasil, na maioria das vezes, por aqueles que fazem ou já concluíram a universidade. Entretanto, trata-se de uma dissimulação para expressar o desejo de manter o acesso à universidade (em especial, a pública) para poucos. O que está em jogo, conscientemente ou não, é a manutenção de um privilégio.

Creio que as cotas parecem injustas para aqueles que, deliberadamente ou não, seguiram a tendência privatizante e individualista e acabaram por optar por soluções individuais para problemas coletivos. Por exemplo, sob a justificativa de que o ensino público não tem qualidade optou-se pelo ensino privado. Entendo essas “escolhas”, mesmo porque eu também a fiz. Mas o fato é que viramos as costas para um direto comum, o da educação básica, e transformamos isso em um privilégio, numa competição em que os competidores são os nossos filhos. Por isso tem-se a impressão de que foi-se lesado, injustiçado. É como se o juiz da partida roubasse o resultado e desse a vitória a quem não merecia.

No entanto, é preciso reconhecer que essa não é toda a história. Existem outras tristezas, outras frustrações e outras decepções sobre as quais não há os holofotes da mídia, não ressoam nos colégios pagos e nem é divulgado por órgãos ou por pessoas formadoras de opinião.

Para justificar meu apoio ao sistema de cotas vou aqui utilizar o esporte como metáfora. Todos sabem que na Fórmula 1 o vencedor é o que alcança em primeiro lugar a linha de chegada. Todos, também, devem estar acostumados com a disposição dos carros no momento da partida. Eles não estão alinhados, mas constituem uma fila dupla. Os mais fanáticos pelo esporte entendem como essa fila é constituída, e muitos acompanham os chamados treinos de classificação. São nesses treinos que se define o “grid” de largada onde os pilotos e suas equipes que conseguem os melhores tempos, garantem as melhores posições no momento da partida da corrida.

No vestibular, como na Fórmula 1, os “competidores” possuem posições de largada diferentes, mas a linha de chegada é a mesma. É claro que quem sai nas filas de trás precisa correr muito mais dos que saem na frente que, por sua vez, tem maiores chances de sagrarem-se campeões.

Essa metáfora é uma simplificação e é incapaz de evidenciar que as equipes que estão na Fórmula 1 já são pré-selcionadas. Muitas equipes, sequer conseguem participar da competição já que é um esporte muitíssimo caro mesmo para empresas e pessoas poderosas economicamente.

O que estou tentando dizer é que disputa no vestibular é na realidade bem mais difícil do que na Fórmula 1. A classificação nos processos seletivos não começa com o início das provas, nem mesmo começa no cursinho ou no segundo grau. Os treinos começaram com os avós e com pais de cada concorrente de quem herdaram de modo inconsciente uma bagagem cultural e escolar que os posicionam na competição do vestibular. É muito significativa a relação entre candidatos aprovados em vestibular para cursos mais concorridos e o nível de escolaridade dos pais. A regra é, quanto maior a escolaridade dos pais maior as chances dos filhos serem aprovados nas universidades públicas.

Seguindo esse raciocínio, muitos jovens de nosso país sequer sonham em fazer um vestibular e cursar o ensino superior. São como aquelas pessoas que ao menos tiveram chances de constituir uma equipe para disputar as corridas de Fórmula 1.

Quem olha desse ângulo enxerga que existem outras injustiças além daquelas praticadas contra quem aprendeu que a saída é individual e que o reconhecimento social passa pelas “vitórias”.

O sistema de cotas deverá promover uma mudança significativa na sociedade brasileira. Ao garantir que estudantes oriundos de estratos sociais menos favorecidos cheguem na universidade, poderemos aumentar, em curto prazo, o número de brasileiros com nível superior que, seguindo a tendência, terão seus filhos cursando, também, cursos superiores. Romperíamos assim o ciclo vicioso que hoje impera estaria quebrado ou, ao menos, enfraquecido. Teremos um país melhor e mais equânime. ´

Parte dos jovens educados com base no valor “dar-se bem na vida” e que ser vencedor é fruto apenas de esforços pessoais e individuais, não foram aprovados nesse último processo seletivo da UFS mesmo obtendo notas maiores que alguns dos candidatos cotistas. É necessário dizer para esses jovens e para seus pais que logo estarão na universidade. Se não passaram agora passarão no próximo, é uma questão de tempo. É, também, necessário dizer a toda sociedade que agora, graças às cotas, milhares de outros jovens que foram educados que a universidade não era para eles, começam a vislumbrar uma chance, ganharam um horizonte de vida do qual eram privados pelo velho e excludente funil do vestibular. Por isso, é necessário reconhecer que se o sistema de cotas é injusto para poucos, é pelo menos, mais justo para muitos.



Escrito por marcelo às 13h31
[] []


 
  [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]  
 
 
Meu perfil
BRASIL, Nordeste, ARACAJU, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, Spanish

HISTÓRICO



OUTROS SITES
 UOL
 UOL SITES


VOTAÇÃO
 Dê uma nota para meu blog!