Marcelo Ennes
  

BIG BROTHER NA ESCOLA? NÃO!!

Marcelo Alario Ennes[1]

Vi pela televisão uma reportagem sobre a utilização de web cam em uma escola de ensino fundamental e médio em Aracaju. Pelo o que vi, a iniciativa está restrita ao ensino fundamental e de série de iniciais e o objetivo é disponibilizar imagens em tempo real aos pais por meio da internet.

A abordagem dada pela reportagem sobre o acontecimento foi de deslumbramento. Mas, a reportagem entrevistou uma psicopedagoga que, em contrapartida, oferecia uma visão bastante crítica. De um lado, a jornalista ressaltava a praticidade de pais acompanharem seus filhos na escola por meio da internet. De outro, a entrevistada, alertava para o risco de distanciamento ainda maior dos pais em relação à escola e aos seus filhos. No final, a reportagem cumpriu com sua missão, aparentemente esclarecedora, de demonstrar os prós e os contras dessa “nova novidade”.

Gostaria de ser menos imparcial e dizer que essa idéia é um equívoco. Trata-se mais uma aposta nas promessas libertadoras das novas tecnologias.

Nesse ponto, talvez fosse interessante relembrar que grande parte das inovações tecnológicas é justificada pelos benefícios que supostamente traria à humanidade: máquinas para produzir e poupar o homem do trabalho bruto; computadores para libertar o homem de suas “prisões” cotidianas (escritórios, salas de aulas, supermercados, bancos etc.).

Mas sempre “esquecemos” de questionar sobre como, por quem e para atingir quais finalidades essas inovações tecnológicas estão sendo introduzidas em nosso cotidiano.

Não se trata de fazer apenas uma crítica à escola que implantou as web cam em suas salas de aula. Ainda menos, fazer o discurso contrário inovação tecnológica. Eu não estou defendendo a idéia de que a tecnologia é, em si mesma, um mal. O que questiono é a postura de deslumbramento acrítico em relação à tecnologia como se fosse uma “magia” para solucionar nossos problemas. No caso das web cam nas escolas, não existe soluções, mas complicações dos problemas existentes.

1) A instalação das web cam nas escolas representa um flagrante desrespeito a autonomia dos professores em sala de aula. O sucesso do chamado processo ensino-aprendizagem passa, inclusive, pela relação de confiança entre professores, alunos, pais, gestores e comunidade. Sem isso, esqueçam! O professor não deve ser monitorado em seu trabalho. Pode e deve ser avaliado, como todos os participantes do processo. Mas não pode pairar dúvidas sobre sua competência e sua responsabilidade.

2) Sala de aula e escola, como muitos educadores vem insistindo e a história, insistente e infelizmente contestado, não é cadeia. Salvo, por motivos estritos de segurança do corpo social da escola, não existe justificativa para instalação de câmeras ou web cam.

3) Ainda que seja muito sedutor, a escola não é palco para espetáculos. Professores não são artistas e alunos não são nem coadjuvantes e nem espectadores desses espetáculos. Nossas crianças ficam lindas no monitor, mas não nos enganemos, não podermos viver uma eterna representação. Além disso, como se não bastasse o lixo televisivo dos “reality shows”, querem transformar as escolas em Big Brother. Vamos ensinar o quê? Joguinhos e dissimulações!? Vamos aprovar os alunos que melhor sabem fazer esses “jogos”? Nosso modelo é o Alemão!? Estamos banalizando, também, a educação!!

4) A introdução de “web cam” esconde uma outra dissimulação. Aparentemente é uma iniciativa de caráter prático para que os pais possam acompanhar o dia-a-dia de seus filhos na escola. Mas isso é feito sem o menor pudor reflexivo. Se o pai não tem tempo, resolvemos o problema com a inovação tecnológica. Com isso empurramos ainda para mais longe da superfície espetacular dos “reality shows” as origens e as causas da falta de tempo dos pais. Trata-se na realidade de uma sociedade que nos submete a rotinas massacrantes e individualizadas de luta pela sobrevivência material e simbólica. Pelo arroz, pelo feijão e pelo leite de nossas crianças que, agora começamos a ver por meio da web-cam. Mas, também, pela roupa de grife, do celular mais moderno, do carro do ano mais sofisticado, pelo luxo e ostentação.

5) Certo, vão dizer que isso é ladainha de “pseudo intelectual de esquerda”. Aliás, assunto a ser tratado pelo IBAMA, já que essa é uma espécie em franco processo de extinção. Mas fica o desafio. Vamos inverter as coisas? Tiramos as web cam das escolas e as reinstalamos em nossos ambientes de trabalho. Ficamos em casa cuidando de nossos filhos e família e trabalhamos com a ajuda da internet. Quem se interessa?


[1] Doutor em sociologia. Professor do Núcleo de Educação do Campus Prof. Alberto Carvalho / Itabaiana da Universidade Federal de Sergipe.



Escrito por marcelo às 20h47
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