Marcelo Ennes
   É obvio (será mesmo?)

É incrível como a impressa é irresponsável. A onda, agora, é a violência. Ficamos reféns das interpretações de William Bonner, Fátima Bernardes e, pior, dos comentários de Renato Machado e Alexandre Garcia (bom, pelo menos, não tenho visto nem ouvido o mestre do simulacro, Arnaldo Jabor). Isso sem falar nos programas sensacionalistas que misturam jornalismo e entretenimento numa “bela” salada temperada com muito sensacionalismo, preconceito e desinformação.

Fico com vontade de dizer que eles não sabem o que estão falando, mas isso não é verdade. Eles sabem muito bem o que estão falando, o que não fica claro é que seus objetivos não é informar, esclarecer, ajudar a encaminhar soluções para esse problema tão grave. Parece, ao contrário, que seus objetivos são disseminar o medo ao  confundir os telespectadores e ao reforçar a sensação de impotência e de fatalidade. Para esse tipo de imprensa só há uma solução: procurar outras fontes de informação, de formação e o velho e bom senso crítico.

Mas não quero falar da mídia, quero falar mesmo é sobre essa modalidade de violência, os crimes (homicídios, latrocínios). A sensação é que isso não tem mais fim. A cada edição dos telejornais novos casos são divulgados como se nada pudéssemos fazer, como se fossem obra do acaso, uma maldição. E como se fossem algo absolutamente novo.  É quando surgem propostas de solução como a diminuição da idade penal, que na verdade, não é solução coisíssima nenhuma, é um embuste, uma protelação, uma resposta violenta à violência que nos assola.

O curioso é que a mídia, ou quase toda a mídia, não pergunta sobre as causas e as origens desse estado de coisas que vivemos. E, muito menos, dão respostas para essas questões. Por de trás desse silêncio, existe a desconfiança de que perguntar sobre as causas e origens do problema da violência é pura perda de tempo. Precisamos mesmo é de solução, solução com “S” maiúsculo. Como se pudéssemos chegar até ela sem percorrer o, nem sempre rápido, caminho do conhecimento.

Entre os que querem respostas sem conhecer as causas, há as almas bem intencionadas. Ou seja, aquelas que não ganham nada com violência, aliás, perdem muito (vidas principalmente). Mas não sejamos ingênuos, claro que tem muita gente que ganha (dinheiro e poder, principalmente) com isso tudo. E essa gente toda não pode ser facilmente identificada como os bandidos ou os políticos (nem a mídia) ou qualquer outro grupo social previamente constituído e definido.

Já disse em outras oportunidades que o problema da violência, assim como da corrupção, do racismo, está disseminado entre nós, está enraizado em nossa cultura. Diz respeito, ainda que de modos e formas diferentes, a todos nós. Não posso deixar de pensar, que a violência hoje é um componente constituidor da sociedade em que vivemos. Faz parte dela, não é um elemento externo, alienígena, um espinho que pode ser facilmente retirado mantendo intacto todo o resto, ou seja, a estrutura da sociedade.

Fico tentado a dizer que isso tudo tem a ver com o capitalismo. Mas isso não seria muito esclarecedor e nada operacional. Mas desde o fim do socialismo real e o início do apogeu do neoliberalismo não ousamos dizer que o capitalismo, ainda que tenha triunfado no embate com o socialismo real, não é um sistema econômico justo do ponto de vista social.

Mas não vou insistir nessa idéia. Não agora. Fiquemos com um dos valores que caracteriza essa sociedade, ainda que não lhe seja exclusiva. A idéia e a prática de que os fins justificam os meios. Vejamos de modo simplista: qual é o fim de nossas atitudes nessa sociedade? O poder. Por qual meio? Pelo dinheiro, pela riqueza, pela ostentação. Como obtê-los? Pelo trabalho? Não necessariamente (já que é penoso, escasso e de resultados muito demorado). Qual o caminho mais fácil e rápido? A trapaça, o roubo, a corrupção. Como a violência entra nessa? Como meio de obter o dinheiro e a riqueza ou como meio de ostentação do poder.

Ações pontuais, ainda que necessárias, não atingirá essa lógica. A solução só é possível se mudarmos, transformarmos o mundo, a sociedade, o pais, a cidade, nosso círculo de amizade exatamente no mesmo momento em que nos auto-transformamos.

Precisamos reformar a sociedade em que vivemos. O problema (ou a solução dependendo do ponto de vista) é que nessa reforma algumas paredes, algumas portas, algumas janelas deverão ser derrubadas e outras erguidas. Não sabemos se a sociedade capitalista suportará tal reforma. É por isso que a reforma não é colocada em pauta e temos nos digladiar para decidir quais as rachaduras deve ser tapadas primeiro. Não temo tido a coragem e o interesse de olhar se o problema está no alicerce.

Peço que me desculpem por esse esquematismo, por essa simplificação de uma realidade muito complexa, pela obviedade. Mas será obvio mesmo?


Escrito por marcelo às 10h14
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