Marcelo Ennes
  

Inútil e injusto mesmo quando se pretende fazer justiça[1]

 

No penúltimo dia de 2006 Saddam Hussein foi enforcado até a morte.

O ex-ditador iraquiano foi acusado e, ao que tudo indica, realmente matou centenas de pessoas, inimigos de guerra e inocentes. A sensação que fica, no entanto, é a de inutilidade e até de injustiça.

É verdade, e aqui não pretendo defender o contrário, que Saddam Hussein, aos olhos e de acordo com os valores do mundo ocidental ou de seus inimigos locais, era um ditador e um governante impiedoso. Apesar de tudo isso a sua execução, se raciocinarmos de modo muito pragmático, ao invés de resolver um problema, pode,   manter e agravar os já existentes, como o ódio entre sunitas e xiitas, e, pior, criará novos, que por sua vez dará origens a outros, futuros, completamente inimagináveis nos dias de hoje. Isso já aconteceu outras vezes e a imprensa e os chanceleres do mundo todo alertam sobre o perigo de transformar Saddam em um mártir. Quantas novas mortes a de Saddam Hussein custará? E cada vez ficará mais difícil separar os inocentes dos não inocentes...

Existe uma outra questão, menos pragmática, talvez de critério. Os EUA, após a invasão, constituíram um novo governo no Iraque. Foi nos tribunais desse novo governo que Saddam Hussein foi julgado, condenado e executado. A questão que me refiro diz respeito à aplicação dos mesmos critérios utilizado no processo que resultou no enforcamento, contra os seus executores. Um julgamento, nas mesmas bases, de George Bush, só seria possível em uma obra de ficção ou, claro, nos desejos cada vez mais explosivos dos fundamentalistas islâmicos. George Bush resistiria a esse tribunal? Quer dizer, continua viva e pertinente a pergunta: quem controla os controladores? Como se vê, trata-se de uma questão de poder, política, portanto.

Além dos problemas pragmáticos e políticos, existem ainda aqueles relacionados aos dos princípios. Nesse aspecto, é impressionante, por exemplo, que a execução foi cercada, segundo a mídia, do mesmo ritual seguido pelas promovidas por Saddam Hussein durante o longo período em que se manteve a força no poder. Usa-se, assim, a mesma pena, o mesmo ritual de morte daquele que foi condenado exatamente por se valer desses expedientes em seu longo governo. Usa-se da mesma arma do inimigo e, por isso, até que ponto os executores não se tornam semelhantes ou iguais ao executado?

Como se vê, sob todos os ângulos, foi uma morte inútil. E por ser morte, por si mesma, foi injusta.



[1] Marcelo Alario Ennes. Doutor em Sociologia (Unesp/Araraquara/SP). Professor Adjunto do Núcleo de Educação da Universidade Federal de Sergipe, Campus Prof. Alberto Carvalho, Itabaiana.



Escrito por marcelo às 21h08
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